
ANDAVA A LUA NOS CÉUS
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar…
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento…
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha…, até cair.
in: As Canções de António Botto
Editorial Presença – 1999
gosto
Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas aposto!
mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas… gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim… gosto!
António Botto
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Poemas do mais fino recorte dório de estirpe ateniense, sublimados pelo trinado de cordas pintelheiras num cenário de viela em que o sol nascente alumia uma pobre alma marceneiramente perdida nas pregas de uma peça de roupa íntima ainda a pingar da sacada.
Um verdadeiro hino ao melhor dos clássicos posto à garupa da universalidade lusa.