Quando entrei na sala vi num relance que o meu demónio
estava deitado
A boca entreaberta, um resto de baba no queixo de quem
Dorme justamente como um anjo.
A janela pouco cerrada e o sofá chegado
à plena luz
A manta já antiga azul e amarela roçava o chão como se
Tivesse havido por ali discreta borracheira dominical.
Congeminei
Que ele antes de reentrar vindo do etéreo passara
por uma tasca ou que
aceitara a oferta toma lá dá cá de um qualquer maltrapilho
Cheio àquelas horas entradotas de uma modesta
fraternidade bebedora.
Olhando bem via-se-lhe contudo no rosto
uma vaga felicidade
Dizendo melhor uma centelha de contentamento
ou alegria, ou
assim como que a sensação de quem vira o mundo
no seu lugar real
Vamos a ver, no fundo a lonjura dominava
Como se visse o cavalheiro por uns binóculos ao contrário
Cheirava um pouco a flores e vagamente
a desodorizante
Um livro tombara no chão, ficara à espera
aberto anquilosado
Quando abri a porta da cozinha vi sobre
o fogão um tacho com
Uma iguaria qualquer com que se entretivera
certamente antes de cair no leito vencido
talvez pelas canseiras das últimas horas.
Se minha mãe estivesse viva decerto
lhe teria aplicado um raspanete
Uma expressão em dialecto se calhar
um tabefe levezinho. O meu pai
Poria na cara aquele sorriso suave dos dias sem idade
Lá fora estrepitavam ruídos da cidade barulhenta
Contos do dia e da noite, o irresistível
fascínio do desconhecido.
Sentei-me, a angústia apoderara-se de mim. Uma frase estranha
Revirava-se-me na cabeça.
Quando olhei pela janela o horizonte
pareceu-me uma linha ténue.
Mais tarde, pensei, falaríamos a preceito. Ou antes
por entre dentes eu diria talvez
coisas sobre a grande aurora ou então sobre a memória
Sibilina dos sobreviventes imutáveis.
Poema de Nicolau Saião
HASTA EL FIN
Cuando entré en la sala percibí de un vistazo que mi demonio
estaba acostado
La boca entreabierta, un resto de baba en el mentón de quien
Duerme sin remordimientos como un ángel.
La ventana entrecerrada y el sofá situado
a plena luz
La manta ya vieja azul y amarilla rozaba el suelo como si
Hubiese ocurrido allí una discreta bacanal de domingo.
Colegí
Qué él antes de recogerse al llegar del espacio celeste había pasado
por una tasca o que
había aceptado un trago de cualquier golfo
Ganado a esas horas tardías por una modesta
fraternidad bebedora.
Bien mirado afloraba sin embargo en el rostro
una confusa felicidad
mejor dicho una centella de satisfacción
o alegría, o
acaso la sensación de quien descubre el mundo
en su lugar debido
Veamos, en el fondo la lejanía dominaba
Como si yo mirase el caballero por unos prismáticos invertidos
Olía un poco a flores y vagamente
A desodorante
Un libro iba a caer al suelo, quedando a la espera
abierto inerte
Cuando abrí la puerta de la cocina vi sobre
el fogón un perol con
Una vianda cualquiera con la que se entretuvo
positivamente antes de caer en el lecho vencido
quizás por la fatiga de las últimas horas.
Si mi madre estuviese viva en verdad
le habría aplicado una reprimenda
Una expresión en dialecto y talvez
un sopapo mínimo. Mi padre
Pondría en la cara aquella sonrisa suave de los días sin época
Allá fuera crepitaban los ruidos de la ciudad embarullada
Cuentos del día y de la noche, la irresistible
fascinación de lo desconocido.
Me senté, la angustia se apoderó de mí. Una frase extraña
Me daba vueltas en la cabeza.
Cuando miré por la ventana el horizonte
me pareció una línea ténue.
Más tarde, pensé, hablaríamos en serio. O antes
entre dientes yo diría quizás
cosas sobre la primera aurora o entonces sobre la memoria
Sibilina de los sobrevivientes inmutables.
nicolau saião
in ESCRITA E O SEU CONTRÁRIO
Trad. Pedro Sevylla de Juana
2 Comentários
RSS dos Comentários URI de Identificação do Trackback
Publicar um comentário









Belísssimo o poema, belíssima a tradução do grande autor de “El Halcón en la puerta”, que em breve estará em Portugal a preparar o seu próximo livro.
Assisti aqui em Londres à sua sessão e foi um êxito. Parabéns aos dois.
Gosto muito. Belas imagens, demónios adormecidos de sibilinas memórias.Apetece perguntar- em que tasca se adormecem as fúrias ?