I
o mais cruel dos meses é o senhor. como se chama? não diga, espere… está na ponta da língua.
pois…
era como se acordasse suspenso naquele cinzeiro.
como se chama mesmo? manuel?… eu sabia, estava na ponta da língua.
é.
quem sabe se não estava a sonhar?
eu…
volto sempre a um estranho sonho. um sonho daqueles bem recheados de imagens e povoado de sons. gosto porque é como se ouvisse vozes contando de um a cem
e
de cem a um, por vezes, também.
sim…
acontece quando, a fumegar, percorro a paisagem dissolvida. é aí que a névoa flutua entre as torres. flutua triste como uma tumba coberta de crisântemos.
aguarrás… a aguarrás limpa os vidros. afoga-os em fogos-fátuos…
II
os pés descalços. sem sapatos
e
sobre o rosto, pequenas garras de gato. entrementes abriu os olhos para se deliciar com os relâmpagos que deixam transparecer um bando de bêbados a gritar… sim. lá em baixo. na rua.
é.
no escuro só se ouvem.
pois
não se vêem. as vozes. as vozes não se vêem. deve ser da névoa que chega. que chegou.
resumindo: ela está descalça a receber projecções nos olhos, mas depois da luz…
outra vez o escuro.
III
senti a picada de uma agulha. uma agulha tão densa que não consegue enxergar onde pôr os pés…
a agulha pulula e fervilha de raiva. só passados alguns instantes é que abre os olhos.
aquela agulha é possuidora de uma vida intensa e misteriosa. de vez em quando desaparece
e
o mais curioso…
sem gritar
sem nos avisar que já não está aqui.
IV
a assimetria provoca um zumbido contínuo. um zumbido daqueles que nos devora como máquinas de dentes metalizados.
a assimetria faz sentir o seu peso sobre a cabeça.
precisamente.
como se me tivessem enfiado aquele capacete de ferro.
será impressão minha?…
estas luzes azuis são o que resta.
fragmentos de pensamentos…
o mar a nadar
a maré a subir
a subir
a subir
a subir
com uma mão na testa.
V
que alívio.
os pacientes despertam de repente
e
vão para casa pelas próprias pernas.
caminham como luzes intermitentes. vibram. depois disto restam os frascos de mostarda no nariz.
a minha terra tem o cheiro dos cogumelos.
VI
longos são os lamentos da velha locomotiva…
padres aos molhos atravessam o bosque, caminham em fila
e
o céu em cinza protege o rio que escorre por baixo.
os padres gostam de morder as mãos da vendedora de fósforos e os transeuntes olham o infinito num balão suspenso. ninguém os censura…
nem a morte desfaz a fuligem.
VII
as gaitas escocesas despertaram do longo sono. diante de mim, uma sombra. murmurei coisas com dificuldade
e
só muito depois me sorri para mim e com compreensão.
também girei o olhar e a cabeça
é
bem provável que estivesse ainda com a cama enfiado no braço.
VIII
à janela
a lâmina de sol brilha no ar
e
nos campos…
eu lhe contarei.
quantos dedos lhe estou a mostrar?
certo… isso é uma mão e esses dedos são seis
e
trinta e seis os pensamentos que esbarram na minha cabeça… os meus pensamentos voam sozinhos.
um pouco como a desesperada solidão das paralelas que nunca se encontram.
IX
a propósito… o senhor como se chama?
não. não diga. está na ponta da língua.
… ismael? … gabriel? vá, faça um esforço…
as palavras esbarram contra os muros. os nomes são como as corujas viram a cabeça para trás e
não esbarram. todavia lá está o muro.
os muros são montes hirtos a chuviscar. branqueiam o mar.
X
o mais cruel dos cultos.
não. não sou muito culto.
mas sabe em que ano estamos.
num ano qualquer antes do meu despertar.
óptimo. no que diz respeito à capacidade de cálculo…
sofri um acidente.
mas saiu vivo, só o posso felicitar.
evidentemente… saí vivo. mas uma coisa há que ainda não está bem.
talvez seja uma amnésia retrógrada.
não. creio que não. mas não me preocupo muito… sabe? estou a confundi-lo com uma estufa hortícola por quem me apaixonei no mês passado.
XI
às vezes duram pouco. os casamentos.
disse-o uma amabilíssima senhora que de dia desmorona das abas do seu chapéu e de noite relê entusiasticamente o seu último livro de poemas. aí, nessa edição da autora, cata as gralhas que pousam nas páginas amarelecidas pelo tempo sem nos darmos conta. ela é um caso curioso. uma intelectual actualizada.
não
não é o meu caso. raramente uso chapéu.
XII
agora é que é.
a minha memória voa como um planador entre montes e cavalos…
sim
um horizonte indeterminado.
gostava era de ser tipógrafo.
napoleão? estou seguro de que não o sou. poderia até ser. mas não. nunca soube escrever muito bem em francês.
bonaparte?… não. não pode ser. não conheço nenhuma josefina… para além de não me agradar a ideia da conquista de meia europa. que faria eu com isso tudo?
é
aqui que fico imóvel, será grave?
certamente que bom não será.
XIII
não és o primeiro a quem assinalei a verdade
o meu amor não te necessita… mais. já encontrei a formula de amar para além das distancias curtas. estava no vidro dos alhos.
sim, na cozinha.
no frasco do macarrão apenas uma mensagem: quando te amei na neurose, lançava colchões pela varanda
e
por entre espelhos de narciso desenterraste-me.
XIV
tu estás arrasado. o meu esófago está infectado. notei logo…
sim.
a vida é um arraso. e o pensamento muitas vezes está cheio de sulfamidas…
coisas assim
acontecem.
depois pediste-me que levantasse a mão direita e tocasse no nariz.
eu sei o que é a mão direita
eu sei o que é o nariz
tocar no nariz é como ter lanternas na ponta dos dedos
sentia-me esgotado nesse dia
e
adormeci.
XV
a cabina telefónica é mera figurante nos teus filmes.
a cabina telefónica, na cena seguinte, apalpa os lençóis.
o cobertor é que não. o cobertor afunda-se para dentro dele
com os dedos na direcção do travesseiro
XVI
deleito-me ao ver-te…
disseste
e
eu também disse muitas coisas.
diverti-me um pouco.
depois senti os pés nus no pavimento e disse:
assim se está bem e de pé.
depois rastejei pelo corredor
e
escovei os dentes.
XVII
observei-me no espelho.
estava consciente de que era eu porque os espelhos, como sabemos, reflectem o que têm diante…
não gostaria de me encontrar de noite numa rua deserta
concluí
óptimo.
disseste e acrescentaste:
mas quem percebe mesmo de sabores é a língua.
XVIII
a vaselina acariciava-lhe as nádegas
e
eu, disse cá para mim:…
é agora!
derramei um pouco de água da torneira num copo
e
bochechei.
alegremente surpreso jogou a cabeça para trás
e
inchando as bochechas cuspiu tudo cá para fora…
com os lábios pode-se fazer de tudo. mesmo um festim circense.
observei.
depois…
derramou a pasta de gesso e fez o seu auto retrato.
XIX
a memória quando funciona
ajuda, filtra os elementos associados às emoções
aos desejos
aos objectivos
um dia destes tentaremos explicar, sem palavras, o acidente que atingiu algumas zonas da capital.
de momento ainda não sabemos tudo o que gostaríamos de saber sobre isso.
afirmamos, porém, que daqui a dez anos lidaremos melhor com tudo isso… falar agora, só aumentaria a confusão.
o mesmo acontece com a agricultura
com as laranjas
com os pêssegos
com os ananases
e
mesmo com os relógios de bolso.
perdoem… mas temos outras coisas mais importantes para fazer.
XX
passamos por horas obscuras
pois é…
dentro de caixas.
sei como se sentirá o resto dos restos. porque aprendi rapidamente a reconhecer
uma máquina
um cão
uma caixa
mas
não estou seguro por onde começar.
é o pânico.
o pânico é como um dente. continuamos a tocá-lo com a língua.
como os lobos
como o senhor…
o senhor chama-se?… não. não diga… está debaixo da língua. da boca…
melhor é esquecer o que disse antes.
o que eu disse antes foi relógio e jardineiro…
e
o senhor não se chama jardineiro.
até amanhã.
encontrar-nos-emos dentro desta caixa negra banhada pela tampa vermelha.
a tampa vermelha é o sol
o teu
XXI
com o cérebro é diferente. pois é. pode acontecer passar para outras áreas
estou a ser claro?
claríssimo, prossegue.
disseste
e
prosseguiste tu:
uma andorinha é um pássaro e os pássaros voam… têm penas. o napoleão não. nem mesmo em criança. os cachorros também não.
eu só disse
as chaves de marfim rodam sobre as sombras das chamas
e
eu minto tanto quanto posso.
falsifico as mentiras até que se tornem as palavras dos outros
XXII
quis ser rainha mas nunca lhe chegou ás mandíbulas.
os seus reflexos de luz sangravam por estranhos orifícios e nada retrocedia diante dela
que mundo este…
nunca a conheci
tão pouco o seu olhar cúmplice que me prometia o sol.
nunca compreenderei esta história…
e se me trouxesses um chá?
uma xícara de chá…
é horrível.
preciso dormir de novo.
XXIII
agrada-me discursar sobre a colagem de objectos obstinadamente agregados ao mundo
precisamente
quando despertas entre bolas de sabão
a ternura será (sempre) o preço
e
quando descalços
a nossa natureza jamais perceberá quão formosos são
os teus olhos
esses longos e saborosos olhos
tornam-se unos
e
dividem o teu corpo em dois na busca da eterna satisfação.
falo da contribuição definitiva para a construção de um futuro livre e infantil
de um breve olhar para reconhecer uma silhueta à luz de velas
de uma barriga farta de pecado
de tragédias gregas onde os jardineiros dão corda aos seus relógios de bolso livres de qualquer espécie de intenção
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