caixas de Manuel Almeida e Sousa
poemas de Nicolau Saião



Mas lembro-me que havia um estranho ruído nas ruas
de gente que subia que descia
e do antigo tempo – como nos sonhos –
saía uma luz como que de farol de automóvel
e o verde-escuro dos rostos crescia a cada segundo
como que para estabelecer uma atmosfera de amargura
todavia amável.

A flor da murta, a flor do cravo, a flor das páginas
impressas. Entre o amarelo do sangue o azul das palmas das mãos
o vermelho vivo dos olhos mortos. O sereno preto-cinzento dos amores
perfeitos.

Falava, segundo ouvi, nas idades mortas da Terra
e na altura do oceano que só existe nas fábulas
e em como era grato sentir no plexo solar o ar de Setembro

Chegou e fez
coisas impossíveis
e não havia já barulho no corredor
porque lá as diferenças não são acentuadas
uma pedra aqui, outra pedra acolá
e a nossa voz reflecte-se como se recordássemos
e se algo brilha (ou não brilha) sabe-se que ali
é o corpo

Como um parque vazio no silencio de Outubro.
Como a lua colorida em Dezembro ou Maio.
Como o interior pulsante de uma anémona ou um miosótis.
Como os pulmões rasgados por um tiro num peito
de animal ou de criança ou de mulher
que outrora amou e sofreu.

Lembra-te
as rosas que nos sábados bem cedo te traziam do mercado
lá estão elas sobre a velha cómoda
Lembra-te
os pequenos cactos na janela da moradia defronte são o penhor
de um silêncio íntegro e solitário.

(Agora
ele escuta
ruídos difusos, leves, incorpóreos
É gente que executa os ritmos habituais de quem se deita
de quem tira a camisola, lentamente as cuecas
e brandamente coloca sobre o espaldar da cadeira
uma gravata, um cinto, um lenço de pescoço).
Sim
longe está o país
onde o nosso cérebro bate como um coração novo).
O amor entre parentesis, a voz do mundo e a letra
do mundo para além dum horizonte que se traçou.

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que lindas caixinhas…têm de ir para uma exposição. não?… e os poemas? olhem que isto é muito fixe!