epipiderme – encontros à volta da performance

epipiderme | Fevereiro 2010

17 de Fevereiro 2010, 22H (todas as 3as quartas-feiras do mês)
Os ambientes de apresentação de performance parecem concentrar-se no esforço de, em tempo real, produzir um acto capaz de ultrapassar essa espécie de prisão, da repetição do quotidiano, no seu entramado de ligações e necessidades; provocando um rasgo existencial que produza algo mais real e entendível que uma imagem
estereotipada e já apreendida do mundo; procura-se na voz e no modo de ver especial de um outro que se dá a conhecer, uma forma de conhecimento.

Performance:
Vera Sofia Mota (Portugal) “Não há amor como o primeiro”
Performance individual. Duração: 40’
…a partir de um certo vocabulário da dança clássica, todos os gestos são sujeitos a um esvaziamento recriando outra paisagem.

Carlos Farinha (Portugal) S/Titulo
Performance individual. Duração: 30’
…espera-se; o inesperado, um resgisto cómico e ao mesmo tempo dramático a condição
quotidiana vai-se densificando.


Rita Rainho (Portugal) “Íntimo altar”
Performance individual. Duração: 20’
… propõe uma acção instalação, onde o publico vai ser convidado a intervir.
Vídeo performance:
Fausto Grossi (Espanha) “Fausto Grossi in concert”
Duração: 10’


Bartolomé Ferrando e “335 pellizcos sonores por debajo
Avelino Saavedra (Espanha) de las íes con respaduras de a”
Duração: 40’

… os três Artistas, trabalham a poesia fonética, a experimentação sonora e o som concreto.

Epipiderme | Rua da Palma 219, 5º ESQ 1100-391 Lisboa Portugal
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epipiderme
encontros à volta da performance

philo café no algarve

inscrições abertas – aqui.

Nos 10 anos de “O índio e o Ocidente”

I – O índio e o ocidente
Reflexos de duas visões diferentes sobre o mundo

Nicolau Saião

(Palestra proferida no auditório da Escola Superior de Educação de Portalegre durante o seminário “Semana Índia”. Publicada na revista francesa Carré Rouge. A republicar na revista Águas Furtadas, dada a lume pela Associação de Universitários do Porto)

II – Anexo

Acervo básico de obras escritas e cinematográficas

Em complemento da conferência foi exibida a película de Franc Roddam “War Party” e slides a partir de fotos de época e de pinturas de NS e João Garção sobre temática índia ou homenageando figuras índias.

Agradecimentos

A Luís Ventura e Manuel Pedro Mourato, pela cedência de fotos ilustrativas sobre cosmogonia índia.

A Gaspar Garção pela pesquisa efectuada no Instituto de Estudos Norte-Americanos (Universidade de Coimbra) sobre textos originais castelhanos e ingleses antigos.

A António Garção pela pesquisa efectuada na Biblioteca-Museu de Sevilha sobre os manuscritos de Bartolomeu de las Casas.

Ao senhor Thomas Bryce Foxriver, Sioux Yanktonai, pelo esclarecimento sobre aspectos da poesia Lakota.

Finalmente à Doutora Fabienne Droz, pela devoção com que preparou slides e demais aparato, criando-me também condições que tornaram mais fácil e espero que mais aliciante a exposição do tema em apreço. Apoie os índios
norte-americanos


I.P.B.K.A.

O Índio e o ocidente
Reflexos de duas visões diferentes sobre o mundo

“O homem branco possui uma qualidade
que lhe fez abrir caminho: o irrespeito”

Henri Michaux

1. Preâmbulo

Ultimamente, devido a circunstâncias precisas que o desenvolvimento das análises históricas e sociológicas tornou compreensíveis, novos olhares têm sido lançados sobre as antigas nações índias e o denominado Oeste bravio. Tem existido mesmo uma clara vontade de compreensão por parte de sectores frequentemente muito afastados do que foram e do que representaram, no seu tempo e no seu espaço próprios, figuras no entanto tão divulgadas como Tecumseh, Sitting-Bull, Geronimo ou Quanah Parker. Multiplicam-se, nos Estados-Unidos mas também fora deles, os estudos e os ensaios sobre este e aquele aspecto da vida dos americanos autóctones, os tais que durante muito tempo foram estrangeiros no seu imenso país e que hoje, acantonados em reservas, ainda são objecto de marginalização por parte de especialistas em malabarismos sociais: se o ouro das Black Hills é hoje memória histórica e um pouco folclórica, não o são seguramente – por exemplo – determinados empreendimentos turísticos e residenciais no território Lakota, bem como a exploração petrolífera e mineira nas terras dos Navajos que sobraram.

Passam agora 340 anos sobre o envio, ao rei Afonso de Portugal, da “Carta sobre a condição dos índios do Brasil”, do padre António Vieira; trinta anos sobre a criação do “American Indian Mouvement”, entidade que contra ventos e marés tem procurado defender os índios norte-americanos da espoliação e da calúnia; e cinco anos sobre o pedido de perdão, em nome do ocidente cristão agressor, endereçado aos Índios pelo actual Papa.

Pela permanência no tempo, da primeira; pela constância e firmeza, da segunda; e pela sensatez (ou deveria dizer pela hipocrisia arrivista e melíflua?) da terceira – dedico a estas três entidades a minha intervenção, agradecendo desde já aos presentes o facto de terem vindo gastar um pouco do seu tempo nesta sessão. E, antes de continuar, gostaria de deixar-vos um momento – à guisa de honesta reflexão – com as breves palavras do chefe Lakota, dos oglalas, Luther Standing Bear, que nos diz numa tirada digna de Jean Giono: “As vastas e abertas planicies, as belas colinas e as águas que em meandros serpenteiam, não eram aos nossos olhos, “selvagens”. Só o homem branco via a natureza como selvagem e para ele a terra estava infestada de animais “selvagens” e de gentes “selvagens”. Para nós ela era mansa, caritativa e nós sentíamo-nos rodeados pelas bênçãos do Grande Mistério. Só se tornou para nós hostil com a chegada do homem peludo vindo do Leste, o qual nos oprime, bem como às nossas famílias que tanto amamos, com injustiças insanas e brutais. Foi quando os animais da floresta se puseram em fuga, à medida que ele se aproximava, que para nós começou o Oeste Selvagem”.

Finalmente e uma vez que a etnografia dos índios norte-americanos é hoje uma ciência puramente histórica, talvez faça sentido reter uma frase de Jean Jaurès que reza:” Do passado, apoderemo-nos do fogo e não das cinzas”.

2. Breve apresentação do índio norte-americano e seu espaço específico

Mais ou menos a partir de 1891, passado cerca de um ano sobre o massacre de Wounded Knee perpetrado pelo exército americano sobre os sioux oglalas liderados pelo chefe Big Foot, começou a falar-se em certos círculos de Leste sobre o “problema índio” remanescente. Alguns americanos mais sensíveis às condições em que as outrora poderosas nações índias eram obrigadas a viver, as contínuas tentativas de retirarem aos autóctones o resto dos territórios, transformados em reservas, que ainda estavam na sua posse sem contudo na prática serem por eles controlados, tinham despertado em alguns – escritores, publicistas ou simples particulares – uma espécie de remorso misturado com uma boa dose de má consciência. A seu ver, haveria um triste problema índio, que consistiria em factos existentes a partir da tentativa de genocídio e no claro etnocídio praticado contra a nação índia no seu todo. Esta denominação, nação índia, era sem dúvida reflexo – atravessado por um certo humor negro involuntário, a despeito das eventuais boas intenções – dos ecos que lhes chegavam, com meio século de atraso, da aliança formada pelos cherokees, choctaws, seminoles, creeks e chikasaws e que funcionou durante algum tempo, antes dos seus membros serem definitivamente enviados para lá do Mississipi, como uma “nação doméstica” no interior da outra.
Com diversas variantes, sulcado por diferentes contradições, este estado de espírito tem-se mantido até aos nossos dias.
Num lúcido ensaio publicado no início dos anos setenta, o escritor francês Claude Roy escreveu com a sua agudeza proverbial que, a seu ver, havia não um problema índio mas sim um problema branco, ou seja: um problema ocidental que através do tempo se comunicara às etnias das diferentes latitudes. E isto porque, como o sublinhou noutro texto o escritor de ascendência Lakota (Sioux) Vine Deloria, o que se passou com os índios norte-americanos revela na perfeição o deficiente sistema societário engendrado pelo homem ocidental, cuja mentalidade cúpida foi um facto infelizmente indesmentível, ainda que camuflado sob o pretexto da evangelização ou da vontade de civilizar.
Estas opiniões são, parece-me, equilibradas e defensáveis. Contudo, é evidente que existe na prática um problema índio, assim como houve um claro choque de mentalidades resolvido de forma expeditiva pelos que, chegados ao Novo Mundo, resolveram tomar conta de tudo como se os índios fizessem apenas parte da paisagem ou das chamadas riquezas naturais.
Choque de mentalidades, repare-se. Ou seja, choque conceptual – para além do choque físico que deu origem a conflitos sangrentos, depredações e, finalmente, claro genocídio.
Mas antes de abordarmos a maneira de viver e conceber o mundo do Índio, convirá termos uma ideia, ainda que algo sucinta e esquemática, sobre o universo em que este se movia, além dum leve voo sobre eventos históricos.
Será de considerar, desde logo, que os colonos que a partir de 1628 iniciaram de forma marcada a sistemática invasão dos territórios índios, a partir do posto avançado de Charlestown, eram membros de seitas religiosas, nomeadamente da dos puritanos, cuja existência nos seus países de origem, devido a perseguições e marginalizações, se tornara problemática. Desapossados dos seus haveres, chegados em petição de miséria,  o que muito confrangia os índios, transportavam consigo, contudo, um terrível vírus – hábitos, preconceitos e filosofias de vida e ainda uma vontade sistemática de reconstruírem nessa América desejada o que não tinham podido conservar na terra de origem. Em vez de aproveitarem a oportunidade que se lhes deparava de erguerem um outro modo de viver, sem constrangimentos (como muitos trappeurs franceses fizeram) reproduziram os hábitos e os tiques comunitários do Velho Mundo que tão mal os estimara e aonde os índios eram, naturalmente, corpos estranhos perfeitamente sem lugar a não ser que renunciassem ao seu tradicional tipo de vida para se converterem aos usos e costumes dos brancos, com sua soma de incongruências. Além do mais, como foi logo percebido desde que Colombo pôs pé em terra, não era possível serem domesticados e só muito poucos – e mesmo esses geralmente em desespero de causa – abraçavam a religião que lhes chegava da Europa desconhecida. Assim,  após terem-se dado conta da irredutibilidade índia, os colonos introduziram de pronto em 1619, em Jamestown, a escravatura negra. Quanto aos índios, que recusavam acerbamente os trabalhos forçados – e tivera-se, meridionalmente, um bom exemplo com os pueblos, a contas com os espanhóis – a resposta era-lhes dada na ponta das espingardas.

Uma das características com que deparamos ao contactarmos com a Nação Índia, é a diversidade e complexidade desse mundo, num acervo poderoso e multifacetado que chega a comover-nos dado que é mester apelar para a memória. Apesar de serem relativamente poucos se atentarmos na imensidade do território que ocupavam – segundo os estudos de ponta de Horst Hartmann, dois milhões e oitocentos mil no espaço que vai da região sonoriana até ao território subártico – os índios estavam divididos em cerca de seiscentas nações principais, subdivididas por sua vez em milhares de tribos. Hoje tem-se como certo que teriam atravessado o Estreito de Bering em diversas vagas constituídas por grupos de escassas centenas há cerca de vinte cinco mil anos, multiplicando-se depois por todo o continente. Especialistas há que os classificam por famílias linguísticas, nada menos que 21, além de 32 línguas isoladas que desafiam a classificação em qualquer daquelas 21; outros, devido a problemas que não caberá aqui invocar, mas que são efectivamente de considerar, preferem classificá-los por nações (algonquinos, mississipianos, cadoanos, ute-aztecas, etc.) ou por regiões específicas (pacífidas, centrálidas, sílvidas, márgidas…). Seja como for, assentemos em que, tal como é dito por Frank Schoell, “os índios que os colonos foram encontrar no século dezasseis e nos que se seguiram eram mais ou menos agricultores, mais ou menos caçadores, mais ou menos pescadores consoante os diversos imperativos do seu meio geográfico”. Podemos pois distribuí-los, de acordo com estes imperativos, por cinco zonas relativamente distintas: a zona do milho, da costa atlântica ao Mississipi e no sul entre o Mississipi e as Montanhas Rochosas; a zona do bisonte, norte e centro da região entre o Mississipi e as Montanhas Rochosas; a zona do caribu, norte do actual Minnesota, Dakota setentrional e actual Canadá; a zona das gramíneas, Califórnia, Nevada e parte oeste do Utah; e a zona do salmão, costas da Califórnia do norte, do Oregon, de Washington e do Alasca. Cada conjunto de nações, divididas em tribos, exprimia de maneira própria as concepções religiosas e mágicas – e de alguma maneira filosóficas – formadas a partir de tipos de vida específicos; no entanto, havia uma constante comum: o relacionamento muito profundo com a natureza, com as realidades e os fenómenos que os rodeavam e aos quais emprestavam frequentemente significados originais. Recordemos, a talhe de foice, a rica cosmogonia dos Denes e dos Delawares, entre muitas outras possíveis. O imaginário do índio, manifestado em conceitos e objectos artísticos que tocam o surreal, tinha muito a ver com aquilo que no ocidente, principalmente a partir de meados do século dezoito, se convencionou chamar poesia. Mas na segunda parte deste texto concretizaremos este ponto.
Há – e chamo a vossa atenção para este facto – dois períodos perfeitamente definidos na vida índia: o antes e o depois  da chegada do homem branco. Com a colonização, além de tribos inteiras terem sido exterminadas (chesapeaks, powhatans, tainos, mohicanos e outros, tantos outros) outras alteraram radicalmente o seu way of life: por exemplo, a introdução do cavalo – que estranhamente se extinguira no continente – efectuada pelos espanhóis, determinou a passagem da vida sedentária para o nomadismo e semi-nomadismo, com o consequente estabelecimento de novos territórios de caça e alianças precárias ou firmemente cimentadas, principalmente dos chamados índios da pradaria (Plains): lakotas(sioux) teton, oglalas e yanktonai, pawnees, cheyennes do norte e do sul, kiowas apache, comanches, arapahos, apaches do norte, etc.
Convirá referir, igualmente, que a implantação europeia se deu através de cinco nacionalidades: a implantação espanhola (primeiro na Florida, depois avançando para o norte até à Carolina, Mississipi, Oklahoma, Colorado, Novo México, Kansas; mais tarde, 1602-1603, até à costa da Califórnia); a implantação francesa (curso do rio S.Lourenço, depois até ao Canadá – Nova França); a implantação holandesa (Delaware, Hudson, Long Island e ilha de Manhattan); a implantação sueca (estuário do Delaware, Trenton e o cabo Henlopen); a implantação inglesa (Virgínia, Massachussets, Rhode Island, etc.).
Há sensível diferença na forma como foram tratados os índios das diversas zonas de influência, apesar de a partir da formação dos Estados-Unidos e da Constituição de 1787 a palavra de ordem fosse retirar das mãos dos índios, mediante todos os meios possíveis, a terra que habitavam, afastando-os paulatinamente para oeste – o que descambaria no tristemente célebre conceito do destino manifesto, expressão cunhada pelo jornalista mercenário Horace Greely com as consequências funestas que se adivinham. No espaço controlado pela França e durante o tempo em que os “flentchi”, nome pelo qual as tribos índias conheciam os franceses, foram o principal contacto com os autóctones na extensão territorial à época denominada Louisiana, vasta zona entre o Mississipi e as Montanhas Rochosas, para norte até ao Oregon e às regiões meridionais do Canadá – Alberta e Colúmbia – depois vendida por tuta e meia (15 milhões de dólares…) em 1803, pelo empenhado Napoleão aos EUA, houve um clima de boa vizinhança. Conforme escreve Herbert Wendt, “embora houvesse brigas e desentendimentos, o período francês foi, de modo geral, intermezzo romântico na história da colonização da América, no seu todo rude e sanguinário(…) Os caçadores franceses, desde o início, estabeleceram relações de amizade com os índios. E eis que descobriram, maravilhados, que os homens descritos nas crónicas espanholas e inglesas como sendo peles-vermelhas sanguinários, eram na realidade homens hospitaleiros, comerciantes honestos e amigos fiéis. Os franceses percorriam campos e florestas em companhia dos indígenas, sentavam-se com eles em torno das fogueiras e, muitas vezes, tornavam-se índios. Muitos caçadores franceses procuraram ser integrados como membros das tribos índias, dançavam as suas danças guerreiras, usavam os seus mocassins, pintavam o rosto à maneira índia e casavam com squaws. Os índios, por sua vez, como disse um dia um cacique chippewa, ‘com os franceses sentimo-nos como se fôssemos uma só família’. A capacidade de adaptação dos pioneiros franceses chegava, por exemplo, ao ponto do general Frontenac não ter dúvidas em dançar em torno dos totens e das fogueiras usando o uniforme de gala cheio de condecorações, o que muito encantava a assistência”.
Tal devia-se, manifestamente, ao facto de os franceses possuírem maior abertura filosófica e social, ao próprio carácter gaulês alegre e algo rabelaisiano – leiam-se as “Mémoires d’un trappeur” do pinturesco Jean de Raimond , dito o “Cauda-de-Lontra” e ficará feita a verificação – e, por outro lado, ao especial cuidado posto por estes no seu relacionamento com os autóctones, tendo em vista os seus conflitos com a Inglaterra. No entanto, isso não os impediu de atraiçoarem, faltando à palavra dada, os guerreiros hurons aquando do cerco de Detroit, o que determinou uma inflexão decisiva na sua guerra com os iroqueses. Os índios, aliás, não tinham papas na língua, quando se tratava de responder a quem tentava arteiramente evangelizá-los. Certo dia, eis como alguns hurons responderam a um missionário francês que procurava convertê-los:”Queres discutir connosco sobre a alma e, no entanto, nem sequer sabes como capturar um castor!”.
A dominação espanhola e inglesa assumiu foros de maior crueldade e violência não só porque os seus interesses eram mais agudos (num caso a febre do ouro, noutro a febre de estabelecerem enclaves) mas também porque a mentalidade índia diferia absolutamente do fanatismo castelhano e da frieza anglo-saxónica. Panfilo de Nervaez, depois seguido por Vasquez de Coronado, que no primeiro quartel do século dezasseis atravessaram a Carolina, o Arkansas e o Arizona, perseguiam e abatiam índios inofensivos que vinham contemplar a passagem das tropas, apenas para “hacer la gracia”, ou seja, para se adestrarem em jogos marciais. A dominação inglesa foi perita em explorar e estimular as rivalidades tribais, compelindo os seus circunstanciais  aliados a exterminar os rivais – o que teve pleno êxito na guerra anglo-francesa, na qual os iroqueses deram cabo de praticamente todos os hurons.
Já referímos que mohicanos mas também eries, pequots, miamis, mohawks, etc., foram dizimados através das armas convencionais e de epidemias, rapidamente disseminadas porquanto o sistema imunológico do índio não estava activado para lhes responder. E era o homem branco, com uma estranha caridade de cepa cristã, quem lhe fornecia mantas infectadas que – repare-se na requintada qualidade do cinismo – trocava frequentemente por boa quantidade de peles ou de belos produtos do solo.
Concretizando o que atrás disse: a diferença de métodos na colonização assenta no facto de que os espanhóis eram movidos pela caça ao ouro, efectuada em tons pomposos (note-se que tinham tido uma gratificante experiência com os incas e os aztecas) dado que a corte espanhola e os seus áulicos e apoiantes, imersos em complicados jogos de interesses internacionais, necessitavam desesperadamente do metal amarelo para a sua política  imediata e de curto prazo. Não podendo atingir o mítico El Dorado e as Sete Cidades de Cíbola, miragem fabulosa criada por um relato propagado pela imaginação desenfreada de um frade empreendedor e um pouco mitómano, frei Marcos de la Renta, que interpretara à sua maneira boatos que circulavam entre os aventureiros – e que haviam sido postos a correr pelos índios para lhes dispersarem a atenção e os confundirem – os espanhóis foram compelidos pelas condições hostis da região e das tribos, muito aguerridas (nas quais se destacavam os apaches) a acolher-se aos seus primeiros domínios; seriam mais tarde os mexicanos (mestiços descendentes dos invasores castelhanos) quem retomaria o afrontamento de pimas, yaquis, apaches e navajos (assim crismados devido às enormes navalhas de combate que utilizavam), isto numa primeira fase antes da anexação americana.
No que se refere à Inglaterra, interessava-lhe efectivamente o estabelecimento de feitorias, à guisa de testas-de-ponte donde partiriam para a conquista de outros territórios visando um estacionamento perene. A consequência inevitável era o extermínio ou a férrea sujeição dos autóctones, assim que se sentiam bem escorados nos postos que proliferavam.
Quanto à França, manteve sempre uma certa distanciação em relação à América – fosse na Nova França fosse, mais tarde, na Louisiana – imensidão territorial que o senhor de La Salle vistoriara. É bem conhecida a opinião de Voltaire, por exemplo, que considerava o Canadá uma espécie de frigorífico onde os concidadãos iam perder o seu tempo. A verdade é que, à França, interessava fundamentalmente a implantação de feitorias onde pudessem dedicar-se ao comércio das peles: quem dominava a colonização eram as “societés”, controladas por nobres negociantes astutos. Além disso, à coroa francesa – que na altura lançava olhares cobiçosos noutras direcções – não interessava imobilizar contingentes militares consideráveis a milhares de quilómetros de casa, policiando terras que a seu ver nenhuma falta lhe faziam. E foi este atraso mental dos monarcas gauleses que permitiu uma melhor respiração aos territórios sob o seu domínio. É também isso que explica – para além de casos decorrentes da estratégia político-militar – as cedências finais durante o violento confronto posterior com os britânicos para controle dos territórios de nordeste.

Em 1825, 1831, 1841 e 1848 iriam ocorrer certos acontecimentos-chave que definitivamente afastariam a possibilidade das nações índias do oeste próximo e, mais tarde, longínquo sobreviverem, tanto mais que os índios – com uma única excepção, como já se aludiu anteriormente – nunca haviam encarado a formação de um Estado, cuja concepção moderna lhes era aliás alheia e desconhecida (hoje é manifesto que os chefes das denominadas cinco nações civilizadas tinham uma concepção de nação inteiramente diferente dos ocidentais). E essa “organização” de tipo libertário, assinale-se,  foi uma das causas – senão a principal! – da fragilidade da Nação Índia frente aos hierarquizados, normalizados e metódicos invasores.
Esses acontecimentos foram: l. A abertura do canal Erie, que escancarou sem retorno as comunicações entre o Leste e o Middlewest, estimulando ainda o desenvolvimento comercial e industrial da região dos Grandes Lagos, ou seja Buffalo, Cleveland e Chicago; 2. A invenção, por Cyrus McCormick, da ceifeira-debulhadora, de que resultou que em poucos anos centenas de milhares de hectares, onde então pastavam milhões de bisontes, fossem transformados em campos cultivados; 3. A construção da Erie Railroad, que permitiu o desbloqueamento das passagens para Oeste; 4. Finalmente, a descoberta do ouro da Califórnia na herdade de Johannes Sutter, o que causou uma devastadora corrida às minas, com milhares de desenraizados e aventureiros a atravessarem as pradarias e as Montanhas Rochosas em caravanas ou em simples bandos, depredando a flora e a fauna – abatendo indiscriminadamente bisontes, que constituíam a base da alimentação dos Plains – com os consequentes levantamentos e as guerras índias  protagonizadas pelos arapahos, kiowas, cheyennes, crows, lakotas, shoshonis, flatheads, etc.; mas o ouro era então fundamental, tanto mais que em 1836 o secretário do Tesouro Richard B.Tanney, com a pronta anuência do Presidente Jackson, emitira a Circular das Espécies nos termos da qual, para a aquisição de terras, o governo só aceitava pagamento em ouro e não em notas de banco.
Era o princípio do fim – do fim sórdido, inútil, lamentável. Mas, neste relance em torno da História, fiquemo-nos por aqui.

3. O Índio norte-americano e o seu relacionamento com o Imaginário

“Se não maltratardes o povo vermelho, mas o tratardes com justiça, podereis ganhar a sua amizade; pois ele possui profundos conhecimentos do que é bom e do que é mau”
William Penn

Ao contrário do homem ocidental, que concebe o mundo como representação abstracta no plano filosófico e como entidade absolutamente dependente no plano metafísico, o índio relacionava-se com a existência pela analogia. O que, se possibilitava naturais erros de avaliação, como por exemplo em relação às verdadeiras intenções do homem branco, que buscava não a utilização das terras mas a sua posse, mesmo que tivesse de massacrar os seus detentores, garantia de igual modo, no mundo físico que habitava, uma integração harmoniosa e um genuíno gosto de viver que só foi alterado pela arrancada branca. O universo do índio, mais que um universo mágico era um universo poético. Ou, por outras palavras: o índio realizava no quotidiano a maneira de ser proposta, no quadro ocidental, pela Poesia e a vida que esta, a ser vivida, exemplificaria. Mais que animistas, os índios eram entes ancorados num quotidiano vitalista que a cada passo lhe fornecia exemplos e imagens construídas e nascidas da imaginação prática (ou deveria dizer praticada?), que é o que o poeta, no bisonho e entorpecido mundo ocidental dominado por classes, tenta plasmar nas suas construções imaginativas e verbais. (Há só uma excepção: a proposta pelos mestres alquimistas, que como perspicazmente assinalou André Breton, espiritualizavam a matéria e materializavam o espírito, escapando assim ao controle do “pensamento oficial”. Como mais uma vez Horst Hartmann referia, os índios não estabeleciam qualquer diferença de base entre sonhos e visões, por um lado, e realidade (a dita realidade palpável) por outro; e isto, é claro, não porque não soubessem distinguir entre uma e outros mas porque ambos tinham o mesmo valor indicativo. Devido a isso, duma forma que a canalhas ou imbecis pareceria ingénua, respeitavam o solo, os rios, os animais e mesmo os guerreiros com quem se defrontavam. Viam-nos como parte dum todo a que estavam ligados, eram protagonistas duma existência recheada de significado (nunca houve índio que bolsasse inanidades como, por hipótese, uma tal crise de identidade…). Nesta conformidade, a “religião” índia deve ver-se como aquilo que de facto era: prática efectiva de ligação a um universo onde as coisas aconteciam por razões porventura misteriosas mas repletas de sentido -  ao contrário da ocidental, que assenta na re-ligação; com efeito, não possuindo mitos de queda e de culpa, para que necessitaria o índio de se re-ligar ao que quer que fosse? – devido a uma dialética e a uma dinâmica que tinha a ver com uma existência não-precária e frequentemente atingida pelo senso da plenitude. Assim, é perfeitamente descabido , quando não pura impostura ou sonoro desajuste falar-se em deuses a propósito do índio norte-americano (norte-americano, sublinho) – ou, como o fizeram durante muitos anos os melífluos missionários que o ocidente lhes punha à disposição, amparados pelo cacete papal, manobra que caucionava a repressão. O índio cria num grande mistério, o que se poderia traduzir por a coisa sagrada em termos ocidentais e exprimia o sentido do sagrado, em termos poéticos, que eles sentiam existir em tudo e que a seu ver envolvia a existência e era, por seu turno, permeabilizado por ela, estabelecendo uma ponte directa e bem prática entre o mundo e o transmundo das coisas e dos seres – vistos, pensados e sonhados. Esse grande mistério ou grande medicina, encarnava se assim podemos dizer de nação para nação – como o wakanda dos Lakotas (yanktonais, santees, oglalas, tetons e yanktons) e Cheyennes ou o manitu dos povos do nordeste – em entidades diversas, palpitando de actividade no quotidiano da tribo e que atravessavam a realidade circundante. Os animais tutelares ou totens eram assim como uma estima do coração e não deuses benevolentes ou maléficos e muito menos presenças metafísicas que se intrometiam na sua vida, como sucede no ocidente, onde o poético, o espiritual e o físico estão inapelavelmente compartimentados da triste maneira que se sabe e se sente. O índio tinha um comportamento epicurista ou estóico conforme as circunstâncias da vida quotidiana: era grave mas não taciturno; alegre mas não descabelado. E isto porque não era perseguido pela descontinuidade característica da circunstância judaico-cristã, agravada pelos ritmos instaurados pela revolução industrial. Apesar da sensível e por vezes rude discriminação que sobre os índios de agora ainda incide, estimulada pela política económica das Companhias – o que pudemos constatar tanto na região plain (Dakotas e Nebraska) como no Canadá da tolerância e da polidez (grande península georgiana, ou seja na região huron-iroquesa dos lagos Huron e Ontário) -  as reservas índias, mau grado os problemas instilados pelos “white-eyes” são comparativamente locais onde pulsa a luz do espírito que só raramente se sente entre as populações urbanas da América not coloured. Pode dizer-se com ironia deliberadamente cruel que o cuspo que os colonos atiraram para o ar, nos tempos da sujeição dos índios, recai-lhes agora na face como um aguaceiro mefítico.
Não sendo um ser amedrontado, o índio nenhuma necessidade tinha de procurar aplacar espíritos bons ou perversos, como sucede noutras civilizações. Claro que se alegrava ou inquietava, mas a exemplo do que sucede no acto poético -  em que os terrores são terrores pela sua própria condição bem assim como os contentamento -  consoante os sinais que distinguia no decorrer da existência. Os mortos inquietavam-no porque ele sentia que o reino da morte era doutra quotideaneidade, mas podiam também alegrá-lo: não era invulgar um índio chegar ao lar e manifestar a sua alegria por ter, numa jornada de meditação (em geral apoiada em jejuns) sido contemplado com o aparecimento dum parente, dum animal doméstico muito estimado, etc.; note-se ainda como exemplo que entre os Plains eram ciclicamente efectuadas danças rituais para facilitar ou possibilitar a vinda das manadas de bisontes e não para comunicar a um determinado deus (animal ou de tipo humanóide…) que já era tempo de se pôr ao trabalho e encaminhar os rebanhos para junto dos territórios de caça (sempre bem estabelecidos por consenso milenar). O totem possuía portanto um valor de ligação e não de adoração. O índio não possuía ritmos de adoração, encarando esta palavra como bajulação a uma entidade supostamente superior ou desencarnada. No que respeita aos denominados homens-medicina (e não feiticeiros, designação que apenas faz parte do vocabulário branco veiculado pelas fitas de Hollywood) que noutras comunidades tomam em geral a designação de sacerdotes ou orientadores espirituais conforme a latitude ou a civilização, eram curandeiros um pouco à maneira dos homens-de-virtude da região ibérica, ou aconselhadores qualificados que, em certas ocasiões determinadas por condições muito próprias, tomavam o cargo (espontâneo e circunstancial e sempre amovível)  de chefes específicos que emergiam do quotidiano da tribo e não se empenhavam em ter mais ou menos influência, o que seria impensável pela lógica da organização do tecido social. Para aclarar melhor a questão: o justamente famoso – pela ponderação e a coragem – Sitting Bull, era homem-medicina e a consideração de que gozava no seio da tribo era tanta que assumiu o cargo de sachem (chefe geral) dos lakotas, que tinham como chefe-de-guerra o não menos célebre Cavalo Louco, que era evidentemente tudo menos louco – o nome vinha-lhe de ter capturado bravamente um garanhão enfurecido em condições peculiares. Os nomes, entre os índios, eram não só um indicativo mas também um qualificativo. Fazendo um pouco de humor, digamos que se calhar o nosso “bochechas”(Mário Soares), se índio fosse, teria talvez o nome de Urso Aldrabão ou, quiçá, Castor Vaidoso ou Arganaz Sedutor… Mas passemos adiante!
Os homens-medicina, fossem chefes ou não, acompanhavam o dia-a-dia, orientavam as festas e os rituais (de colheita, de caça, de mudança de estação ou de localização da tribo) eram de certa forma o garante dos grandes ritmos que presidiam à relação entre o conhecido e o desconhecido. Por vezes funcionavam como diplomatas inter-tribos e, nalgumas que em ocasiões sacrais utilizavam alucinogénios (como entre os pimas e os yaquis) interpretavam as visões daí decorrentes. Note-se que os índios usavam de preferência jejuns e períodos de isolamento em lugares específicos: montanhas, bosques e recantos junto a rios, no caso dos índios do sudoeste orlas de desertos (jamais se adentravam pelo deserto, como fizeram no último período da romanidade as comunidades de cenobitas cristãos do norte de África), onde buscavam ser contemplados com revelações em ordem a compreenderem o mundo e o seu Eu profundo.
Quanto aos chefes, que como já se aflorou podiam ser chefes-de-guerra ou civis, estavam rigorosamente dependentes dos conselhos tribais e, se eram sempre acatados e respeitados, uma vez que emergiam naturalmente da comunidade, funcionavam mais como consciência da nação do que como líderes cuja palavra não era passível de discussão. Só numa circunstância tinham de ser rigorosamente seguidos: quando em estado de batalha – e os próprios conflitos, como a palavra batalha deixa perceber, eram de âmbito limitado, sendo fundamentalmente sustentados por grupos. Mesmo quando uma nação era tradicionalmente inimiga de outra, como os sioux e os pawnees por exemplo, não se buscava a extinção do adversário e o feito guerreiro tinha fundamentalmente a ver com a qualidade e não com a quantidade. Lutava-se pela honra, pela coragem, pela vingança de injúrias ou pelo abuso da entrada em territórios de caça ou utilização. A posse destes últimos estava dependente do uso que lhes era dado pelo colectivo e, portanto, não era encarada como exaustiva e total. Nunca passaria pela cabeça de um índio dizer este sítio é meu, pois entendia-se que apenas aprouvera ao grande mistério possibilitar que a tribo dispusesse dele a seu efectivo bel-prazer. Em geral, os índios norte-americanos eram anarco-comunistas, ou melhor: socialistas libertários, o que os distinguia das monarquias totalitárias ou de claro enfoque do que depois se chamaria nazismo (por exemplo os aztecas) das nações da América central.

Grande parte da civilização ocidental assenta num intrincado jogo de efusão/recalcamento (para usar a terminologia freudiana) que estimula o desejo de acumulação. Ao frustrar pulsões legítimas, o sistema relacional ocidental e cristão (a este respeito sugerimos a leitura de “A neurose cristã” de Pierre Solignac) distorce o pensamento e dá origem à necessidade de posse dos bens, que tudo arrasta na sua frente (o que é caracterizado pelo axioma “uso e abuso” que define o conceito de propriedade). A mística recorrente é, em geral, apenas uma fórmula – e, em rigor, hipócrita e falsa – para tentar impedir que as consequências vão demasiado longe ou, então, para camuflar o que subjaz aos manejos dos sectores dirigentes e possidentes. Nunca passou pela cabeça do índio, antes da dura realidade o esclarecer, que o branco quisesse para exclusivo uso seu e para fins que ao índio pareciam provindos da banal loucura – isto é textual, é um raciocínio dum líder chikasaw, Braço-de-pedra – o vasto território que lhe parecia sem fim e onde as nações índias viviam harmoniosamente devido à arquitectura forjada pelos milénios. Estabilizada por anos e anos de sucessivo aperfeiçoamento que a vastidão e a riqueza do continente permitia, a vida do índio estava recheada de sentido. A vida era por vezes dura, mas sempre se revelava gratificante. Interiormente, o índio interrogava-se mas não se enrolava sobre si mesmo e, se muitas vezes se angustiava, como ser humano que era, as ricas relações no interior da comunidade encarregavam-se de aplacar ou dissolver essa palpitação negativa. Nas tribos do nordeste e da costa atlântica, que foram as que primeiro sofreram a brutalidade do invasor, o choque entre a sua mentalidade libertária e a obstinação primária dos colonos foi o sinal claro do que a seguir iria suceder, uma vez que a terra não era para o índio um corpo político e sim um lugar onde residia com as árvores, os animais, as montanhas, a chuva e o deserto, em suma: tudo aquilo que constituía o mundo de realidade e de sonho onde não fora instaurado o complexo de culpa que constitui uma das bases fundamentais do pensamento religioso ocidental e, inevitavelmente, o seu cerne filosófico. Para o índio norte-americano a morte não era, como para o cidadão europeu, uma essência e sim uma cessação. Nunca uma imanência, antes uma consequência bem reconhecível – uma facada, um tiro, uma doença ou a muita idade. Arguto, encarava por isso a protérvia judaico-cristã como uma história absurda ou uma impostura. E por isso mesmo o seu mundo conceptual, extremamente perigoso para o que lhe chegava abruptamente, tinha de ser destruído pelo homem branco.
Assim sendo, é fácil tirar a conclusão maior destas linhas e a única para que chamo vivamente a vossa atenção: sempre que uma civilização baseada na tradição secular livremente engendrada se confronta com outra baseada na evolução acelerada e na acumulação, a primeira desaparece ou é gravemente transformada pela segunda.
Significa isto que, ao cabo,  a sorte da Nação Índia estava traçada no momento em que Colombo pôs o pé nas praias do Novo Mundo. O índio, que vivia no neolítico mas que apesar de tudo mostrou uma espantosa capacidade de adaptação interior – e mesmo exterior, convenhamos -  a ritmos que lhe eram totalmente alheios, conceptualmente estava mergulhado no chamado estado segundo ou seja, o mundo mental em que realidade e sonho se interpenetram, estado esse que é profundamente odiado pelos próceres da civilização ocidental, que apenas respeitam ou a Razão ou o instinto de posse camuflado de necessidade espiritual (vulgo religião, que é apenas e tão-só, se nos despirmos de preconceitos ou receios, um polo agregador de interesses psico-sociais). É esse estado segundo que explica a curiosidade que os autóctones americanos sentiram pelo álcool, o que foi de imediato explorado pelos colonizadores. Como o álcool lhes permitia/facultava atingir um estado de euforia – que, diga-se, excelsos poetas gregos e árabes epigrafaram com volúpia (será necessário nomear o justamente célebre “Rubayat” de Omar Khayam?) – que eles pensavam ser um ritmo dos brancos, deixaram-se defraudar pelos colonizadores, que estimulavam cinicamente o alcoolismo. Chegou-se a um ponto tal que em certas tribos do Middlewest e do Oeste houve a necessidade de os conselhos tribais interditarem rigorosamente o seu consumo, chegando-se a estabelecer (e é um dos poucos casos em que tal ordálio se aplicava) a pena de morte, punição raríssima entre os índios visto que em geral era substituída por obrigações de doação. Entre os Plains, o álcool era mesmo considerado como mais uma arma de guerra por parte dos brancos.

A nação índia, no seu todo, desapareceu para sempre. Nobre e orgulhoso gavião planando sobre montanhas e florestas, viu o seu vôo destroçado pela gente que a princípio auxiliara. Espoliada, caluniada, utilizada em divertimentos de pacotilha – mas também respeitada, compreendida e amada por ocidentais que sabem ser índios na selva urbana – é hoje não mais que recordação, uma vez que se desfizeram as raizes que a sustentavam: o território onde se estabelecera o equilíbrio harmonioso entre a natureza e o homem.
Hoje em dia, habitantes que somos de universos alternativos e, ultimamente, até interactivos, resta-nos somente uma certa nostalgia – mas igualmente, afinal, a arma de sabermos que é possível viver-se, mais que não seja por dentro, de maneira menos precária do que a vida (?) que foi criada, consentida e consolidada pelos europeus filhos do Método e da Mística da navegação entre Cila e Caríbdis ou, o que ainda é pior, das correrias entre Zeus e Mamón…

Bibliografia de apoio

História dos Estados-Unidos -  Frank L. Schoell
Enterrem o meu coração na curva do rio – Dee Brown
Introdução à poesia – Johannes Pfeiffer
Tudo começou em Babel (edição brasileira) – Herbert Wendt
História da morte no ocidente – Philippe Ariès
Os índios da América do norte – Horst Hartmann
O primeiro americano – C.W. Ceram
Os nativos americanos – D.Thomas, Jay Miller, etc.
Undaunted courage (não publicado em Portugal) – Stephen E. Ambrose
Art et Alchimie (não publicado em Portugal) – Justin von Lennep
A queda de Custer – David Humphrey Jennings
La lampe dans l’horloge (não publicado em Portugal) – André Breton
Custer died for your sins (não publicado em Portugal) – Vine Deloria
The west (não publicado em Portugal) – Geoffrey Ward
Os deuses do homem pré-histórico – Johannes Maringer
Os deuses antigos – E. O. James
American indians miths and legends (não publicado em Portugal) – Richard Erdoes e
Alfonso Ortiz
As origens do cristianismo – J.G.Davis
Eros e religião (edição brasileira) – Walter Schubart

Revistas avulsas: Anthropos (EUA) e Sphinx (Inglaterra).

ANEXO

Obras cinematográficas

Além do filme de Kevin Costner “Dança com lobos”, que para muitos representou o primeiro contacto com o índio enquanto ser humano enraizado, diversas películas têm apresentado o ambiente índio, antigo ou moderno, com suficiente credibilidade ou mesmo de forma superior. Independentemente do seu perfil artístico, que é evidentemente variável, considera-se que as seguintes são obras de base. E felizmente quase todas se encontram disponíveis em vídeo.
Nota – O sinal (.) indica obras referentes à época actual.

Asas de águia – realizado por Anthony Harvey
O grande combate – John Ford
O último guerreiro – Harry Hook (.)
O homem chamado cavalo – Eliot Silverstein
O clã dos guerreiros – Franc Roddam (.)
Desforra apache – Michael Winner
O pequeno grande homem – Arthur Penn
O soldado azul – Ralph Nelson
A fuga de Ulzana – Robert Aldrich
Chuka – Gordon Douglas
O vento negro – Errol Morris (.)
O vale do fugitivo – Abraham Polonsky (.)
Mohawk – Kurt Neuman
A flecha quebrada – Delmer Davis
Grayeagle – Charles Pierce
O rio das penas – Gordon Douglas
A última caçada – Richard Brooks
Coração de trovão – Michael Apted (.)
Terra bruta – John Ford
O último bravo – Donald Shebib (.)
Comanche station – Budd Boeticher
O guerreiro do vento – Keith Merril
Tecumseh – Larry Elikan
Espírito guerreiro – René Manzor (.)
O mundo não perdoa – John Huston
A flecha sagrada – Samuel Fuller
A pena branca – Robert Webb
O último apache – Robert Aldrich
Geronimo – Walter Hill
Estrada da fortuna – Ken Friedman (,)
A desaparecida – John Ford

Quinhentas nações (documentário em 8 jornadas) – Kevin Costner

Contos, novelas e ensaios

Memórias de Ponta-de-ferro – relato estabelecido por William Camus
Viagem para as trevas – John Upton Terrel
Enterrem o meu coração na curva do rio – Dee Brown (chefe Olho Sagaz)
O sol Hopi – Dan C.Talayesva ( chefe Águia Branca)
A viagem de don Álvaro Cabeza de Vaca – trad. do espanhol antigo por Fanny                                          Bandelier
As minhas aventuras no país dos Zuñi – Frank Hamilton Cushing
Contos – Dorothy M. Johson
Na pista do Oregon – Francis Parkman
Apache – W. Livingston Confort
I’shi em dois mundos – Theodora Kroeber
Os caçadores do Arkansas – Gustave Aimard
Onde os mortos dançam – Tony Hillerman
A pradaria – James Fenimore Cooper
A minha história – Geronimo, texto estabelecido por Frederic Turner
Ainda há índios? – Claude Roy, Roger Renaud, Edouard Bailby, etc.
Antigas Américas – Michael Coe, Dean Snow e Elisabeth Benson
O livro da herança americana dos índios – William Brandon

Sugere-se, ainda, a leitura das obras de Zebulon Montgomery Pike, John Charles Fremont, Benjamin Bonneville e Edewin Thompson Denig (nenhuma delas publicadas em português). De muito interesse, igualmente, é a obra gráfica de Karl Bodmer e, de Georges Catlin, o álbum “Hábitos, costumes e condição dos índios norte-americanos”, que arrola cerca de quatrocentos desenhos e pinturas a cores (em França ed. pela Denoel). As obras “Contos de Inverno”, anais das tribos Lakotas e Kiowas e a “Walam Olum”, crónica tribal dos Delawares, são também excelentes, posto que difíceis de encontrar no mercado fora dos EUA ou Canadá. É boa leitura, ainda, a “Relação da primeira viagem e descobertas dos Espanhóis na América”, de frei Bartolomeu de las Casas, bem como o relatório diplomático da expedição de Lewis e Clark.

NS

a nossa santa igreja velocipédica

a deusa disse: – “as horas são velozes…”
e
mais disse: – “o inferno é azul”.
disse-o e, nós crentes, só pelo facto de o ter dito – aceitamos.
só podemos aceitar.
uma maçã caiu
e
uma explosão de discórdia se fez sentir. foi nesse momento que os relógios inverteram o sentido dos seus ponteiros e impuseram um novo ritmo.

- “somos uns viciados em bolsos…” disse o papa jonas ao abrir o novo templo ao culto ciclista.
e
a nossa senhora das bicicletas fez uma nova aparição – todos levantaram as mãos ao céu
e
a grande senhora nomeou os seus 23 papas ciclistas (porque 23=2+3=5).

não. a santa igreja das bicicletas não é uma cisão (de maneira nenhuma) da doutrina discordiana.
não.
a santa igreja das bicicletas é, tão só, um templo, uma loja, uma venda, uma tasca que obedece ao rito vanguardista/velocipédico dos 5 elementos – a saber:
volante
roda
pedal
selim
campainha

daí se infere que a santa igreja das bicicletas é una e indivisível – logo verdadeira
e
braço/ramo da grande árvore discordiana: a macieira
(precisamente. essa macieira a que o papa jonas e todos os outros papas nossos,  recorem para o encosto dos seus velocipédicos instrumentos de culto)

“quando a luz se desfaz… sentimos o poder da luz
e
as trevas abandonam, num repente, os nossos corpos”

(in livrociclo fnord II, ver-cíclo XXIII: “o do percurso das 5 virtudes”)

os nossos evangelhos não foram escritos pelos doutos e sapientes sacerdotes.
os doutos e sapientes sacerdotes da velocipédica e santa igreja são meros  guardiões
e
veículos de transmissão da grande deusa éris e sua santa “irmãzinha” a nossa senhora das bicicletas.
e foi assim que o papa jonas concebeu o grande tarot discordiano
e foi assim que o papa affi escreveu o apocalipse da discórdia

no apocalipse da discórdia há 5 cavaleiros. 5 grandes espíritos prontos a gerar o kaos II – porque primeiro foi o kaos I e no fim dos tempos o kaos regressará – será então o kaos II…
pois
precisamente
e
é por isso que o nosso templo é um phalo.
um belo phalo que se eleva na direcção dos céus.
um phalo enorme que se abre na base aos fiéis da grande maçã.

os ciclistas, porém, passeiam-se em torno do templo
e
a deusa excita-se (muito) ao sentir os rodados dos instrumentos velocipédicos dos fiéis no terreiro.

mas voltando aos 5 cavaleiros apocalípticos… eles vão surgir para gerar o kaos final (segundo reza a epístola de affi – papa discordiano e mago kaoísta).
eles vão aparecer do nada, montados nos seus motociclos
e então…
só então
o tempo sofrerá uma paragem de não tempo.
o tempo deixa de ser tempo
e
não mais haverá tempo para nada.
os comboios não mais cumprirão horários, os transportes públicos e…
bom, vocês nem calculam o que vai ser o kaos II.
o kaos II (o da banana), é uma foda total.
depois do kaos II, virá o kaos III (o do melão) e o kaos IV (o das uvas)
e
só muito depois
o grande kaos V…
ora o kaos V, é o nosso kaos, o único kaos verdadeiro.
é o kaos ciclista, o caos onde todas as manhãs vão chover maçãs para que os fiéis se alimentem pelo conhecimento.
para ficarem mais espertos – porque adquirem o conhecimento empacotado na maçã.
e
todos seremos mais saudáveis porque comemos as maçãs
do e no kaos
da e na discórdia…
é…
todas essas merdas, vêm nas escrituras.

então… muito felizes, comeremos perdizes e cantaremos em coro:

todas as manhãs
comemos maçãs
comemos maçãs
temos as mentes sãs

anjos inocentes (acerca do casamento…)

A Plataforma Cidadania e Casamento agendou para o dia 20 de Fevereiro uma manifestação a favor do referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma acção que conta com o apoio da Igreja Católica.

O ATENTADO DE 1 DE FEVEREIRO DE 1908 (REGICÍDIO)

Porque o regicídio está fora das comemorações do centenário da república(?)… talvez em nome dum “politicamente correcto” tão em voga nesta nossa dita “democracia”…


… porque defendemos e assumimos (ao contrário de qualquer comissário(a) das comemorações do centenário da república) a verdade histórica, sem vergonhas ou preconceitos… e, ainda porque consideramos Costa e Buíça os heróis da causa republicana, a velocipédica resolveu publicar na integra este texto de Aquilino Ribeiro. Homenageando, assim, os dois regicidas tão mal tratados por este regime: Viva Buiça! Viva Costa!… (assassinados pela guarda real) Morte ao rei!… Morte a João Franco!… (Morte aos ditadores!)

O ATENTADO DE 1 DE FEVEREIRO DE 1908 (REGICÍDIO)

Versão de Aquilino Ribeiro (documento da Associação República e Laicidade)

O CONTEXTO POLÍTICO E O PLANO DE UM ATENTADO
(…)
(…) o decreto que [ João Franco ] elaborou depois da malograda tentativa de insurreição de 28 de janeiro , decreto de que houve logo rumor no dia 29, e publicaram as gazetas, referendado pelo rei, (…) no dia 31, ampliava ao máximo o pretorianismo das atribuições. Nos termos desse ucasse, redigido por uma pena cafreal, o governo ficará habilitado com a faculdade de expulsar do Reino ou fazer transportar (este transportar é bem o vocábulo de significação impressionista que quadrava aos homens tratados como coisas pelo senhor do Alcaide) para uma província ultramarina aqueles que, uma vez reconhecidos culpados pela autoridade judicial competente, importe à segurança do Estado e tranquilidade pública e interesses gerais da Nação afastar, sem mais delongas – este mais delongas é politicamente inefável; o mais aqui subentende algumas; quais? – do meio em que se mostrarem e tornarem perigosos e contumazmente incompatíveis. Não podem, por igual, gozar imunidades parlamentares aqueles que contra a segurança, do próprio Estado se manifestam ou que como inimigos da Sociedade se apresentem.
Faltava arvorar a forca no alto do Castelo e pelos oiteiros de Portugal – comentavam os republicanos – para ressurgir a era dos capitães-mores e da justiça de pendão e caldeira.

Naquela manhã morna, com os pardais nos beirais da Boa Hora a espreitar o sol e em baixo, na calçada, a alcofa dos carroceiros, ouvi que batia à porta mão que me não era estranha pelo tonus das pancadas. Estendi o braço mesmo da cama, o pincho interior solevantouse, e pela porta entreaberta passou o vulto, meio desengonçado, o anélito de opressão que lhe era comum, indicativo de máquina afadigada, de Alfredo Luís da Costa. Após a troca de cumprimentos, disse-me de salto:
– Até que enfim. Tenho o grupo que há-de ir esperar João Franco…
– Para quê ? Como prelúdio da revolução ?…
– Estive ontem à tarde com Marinha de Campos que me disse : – A tropa nega-se a sair enquanto João Franco andar à solta.

– É fantástico, mas é assim mesmo. Os comandantes tomaram-se de pavor diante do novo Minotauro. Na nossa terra, basta esbracejar, dar murros na mesa, bramir, romper contra a corrente do bom senso, armar em teso para ganhar fama de valentia ou de superioridade, e fama que não é fácil de extirpar com duas razões no bestunto do nosso próximo. Aqui tem de que cocas se gera o ascendente de João Franco.
– E tem a certeza de que o movimento militar se desencadeia a seguir ?
– Certeza baseada na promessa solene que me foi feita. Marinha de Campos asseguroume:
Neutralizem de qualquer modo João Franco e a revolução está na rua. E lembro-me bem que acrescentou : Eu, por mim só, não tomava este compromisso e muito menos a responsabilidade do que lhe digo. É o comité militar todo. Eu sou o porta-voz. Por unanimidade decidiu-se que não havia outra solução senão eliminá-lo, por uma forma ou por outra.
Um sequestro? Um sequestro era oiro sobre azul, mas é o mesmo que os ratos conjuraremse para deitar o guizo ao pescoço do gato. Portanto, tratem de livrar-nos do tirano como melhor entenderem. Façam obra limpa e poupem o pêlo que, em matéria de remorsos, podemos todos muito bem com ele. Estou persuadido que pondo num prato da balança a vida do ditador, do outro as vidas que por sua ordem já foram ceifadas e se vão ceifar, as lágrimas das mães e das esposas, o inferno de torturas que nos espera a todos, não falando no dique que pretende opor à vaga de libertação do povo português, não há equiparação possível.

– E você que pensa ?
– Penso assim.
– Não lhe observou: porque não efectuam agaloados a empreitada ?
– Alguém há-de coordenar a manobra, e, por outra, alguém há-de dar o corpo ao manifesto. Para o caso, organizei eu um grupo que está pronto à primeira voz. Vamos esperar João Franco, depois do almoço, à Rua Alexandre Herculano, para onde mudou.
– Que gente leva consigo?
– Levo o Buíça… – isto dizendo torceu-se todo e olhou para mim como a consultar-me. – Levo o Buíça, mas com certa relutância. Você sabe, o Buíça tem dois filhos menores. Morreu-lhes a mãe… Que seria dos pobrezinhos se o pai perdia a vida na aventura, primeiro desamparados, depois que ominoso não os esperava pela vida fora, filhos de homicida !? Pois a nossa gente não está imbuída dos pés à cabeça de pecado original ?
– Acho que raciocina muito bem. Decidiu não o levar ?

– Não decidi. O Buíça é um homem valente, que não volta a cara, e eu não tenho grande confiança nos outros… pelo menos em dois.
– Quem são eles ? Conheço-os ?
– Não conhece. Eu até ontem também os não conhecia. São dois antigos guardas-fiscais, do posto dos Olivais, que João Franco demitiu. Vão por vingança, deixá-lo ! A questão é que dêem ao gatilho na devida altura.
– Nada mais precário !
– Vi-os ontem pela primeira vez, como lhe digo. Deixaram-me a impressão de homens resolutos.
– E quem é o quinto?
– O quinto é aquele rapaz da Costa do Castelo, Domingos… parece que se chama Domingos, Domingos Ribeiro… Lembra-se dele?
– Um rapaz bem-parecido, magro, sobre o loiro, de estatura antes mais baixo que alto, que está num armazém de vinhos… um pouco acima da Sé…?
– Esse mesmo.
– Eu conversei apenas umas duas vezes com ele…
(…)
– Que me diz ao decreto que Teixeira de Abreu levou a Vila Viçosa a assinar e ontem publicado nos jornais ? Eu já sabia há dois dias, pelos nossos informadores, que roda de navalhas se estava a armar contra os republicanos.
(…)
– Não há dúvida. João Franco, se o deixam, povoa Timor com republicanos. Consta que já tem fretados dois grandes paquetes para o transporte.
– Alguém há-de escapar à redada…
– As malhas, segundo se diz, são tão apertadas que vai muito peixe miúdo. Figura nas listas tudo o que é manifestamente republicano ou suspeito disso. Os maiorais são postos na fronteira: amigos, se quiserem voltar à parvónia, regenerem-se. Hão-de enrouquecer primeiro a dar vivas à Cristina, isto é, ao marquês da Bacalhoa!
– Deixe lá, organiza-se Timor em república. República Portuguesa de Timor. Um dia, quando D. Carlos e os seus parasitas tenham acabado de escangalhar a metrópole, vimos por aí fora todos e escorraçamos os vendilhões…
– Era uma bonita coisa, era, sim senhor. (…)…
(…)
– Sério, sério: leu bem o decreto ? O João Franco faz de conta que vai dar uma batida aos lobos na serra da Gardunha. Agora, ainda mais responsável que ele é o rei.
– Mais responsável…?
– Salta à vista. Este decreto, que é senão um pacto de criminosos depois da liquidação miserável dos adiantamentos ? Desde esse dia, o rei é o capitão da quadrilha, que promoveu Franco a seu lugar-tenente. O que D. Carlos merecia sei eu…

– Tudo o que se fizesse neste momento contra D. Carlos era contraproducente. Lembre-se que nos países atrasados a tradição tem muita força. Não esqueça também que este povo está há sete séculos ajoelhado diante do rei como de Deus. Tínhamos todo o mar de sentimentos, os naturais, os obtusos, os artificiosos, os herdados de nossa avó torta encapelados contra nós, a favor do trono. A nau republicana, de mau madeiramento, mal calafetada, inexperta nas águas revoltas, ia-se ao fundo irremediavelmente. Ia-se ao fundo debaixo do peso das responsabilidades com que não sabia, nem teria a coragem, nem a possibilidade de arcar.
Ficou calado, a ruminar no que eu lhe dizia. E, porque não achasse logo resposta no seu espírito, volveu:
– Depois se verá. Preciso ainda de ir arranjar uma arma. Estamos mal armados. O Buíça, esse, já lá tem a excelente carabina que estava no Heitor. Os homens dos Olivais estão armados com abbadies, de marca espanhola. A cada passo encravam-se. É o rapaz do Castelo que não tem…
– Mas é coisa decidida.
– Ora essa, duvida da minha palavra !? O Buíça até já esteve esta manhã a tomar as suas disposições por escrito… uma espécie de testamento. Eu não tenho ninguém. Por outra, tenho uma irmã menor. Meu tio, que é rico, não faz grande favor em olhar por ela.
– E se o Franco lhes falhar na Rua Alexandre Herculano.
– Vamos dar-lhe caça até o descobrir. Nem no meio do inferno nos escapa. Ele há-de ir hoje ao Terreiro do Paço esperar a Família Real. Fuzila-se mesmo lá !
– Não pense nisso ! É correr grandes riscos…
– É e não é. Assim que a fera esteja em terra, temos a revolução na rua. A questão é aguentar…
– Veja lá, olhe que isto não é a ária do Trovador : Madre infelice, corro a salvarti… Supondo que tudo se passa como calcula, estes compassos de espera não obedecem ao relógio.
(…)
– Falta-nos também – prosseguiu – um varino para o Buíça esconder a carabina. O Ferreira Manso disse-me logo: pegue-o lá, mas o Ferreira Manso é um friorento. Vou pedi-lo ao Lima, que pode muito bem passar sem ele. O Lima é bom rapaz, não me diz que não.

Alfredo Costa estava perfeitamente à vontade, sereno, como se combinasse um passeio a Vila Franca para ver a tourada. Eu, no fundo, guardava um pouco de cepticismo sobre aquele empreendimento, que me parecia destinado a gorar como dezenas de tantos outros, inclusive o meu projecto de fuga do Caminho Novo com um automóvel que me pusesse em lugar seguro, a gorar mediante um argalho ou uma trave. E vi-o partir na convicção de que tudo em Portugal fica em vê-lo-emos, e a política activa não é mais que um imenso vazabarris das boas e más intenções, dessas de que está o inferno cheio e doutras que morrem in ovo, por falta de bom senso, de nervo, resolução final, reduzidas muitas delas a cisco por um cabelo, coisa de nada, imponderáveis esmagadores como rochedos da Gralheira. E não pensei mais nisso.

O ALVOROÇO

As horas, por todo aquele dia de meio sol, no meu cesto de gávea decorriam vagarosas que nem as do alquimista a olhar para as retortas e a cismar, depois de mais um malogro em buscada pedra filosofal. O cativeiro em Babilónia, no Caminho Novo ou naquela mansarda era sempre cativeiro. Quando é que voltaria a ser livre como os pássaros? Alagado em tédio, pensava que uma das condições mais dignas do homem é a do cavador, em comunhão constante com os elementos naturais. Não que no meu espírito ancorasse preocupação séria quanto à aventura anunciada de Alfredo Luís da Costa. Em verdade, no meu subconsciente gorgulhava uma ideia de cepticismo por tudo o que se parecesse com golpes de força á antiga, lances de sangue e brutalidade de que supunha de todo incapazes os meus contemporâneos. Eu, como eles, como as gerações antes de mim e havia de suceder com as gerações depois de mim, pertencia a uma camada sedimentar de dessorados de que havia pouco a esperar sob o ponto de vista de dinâmica de eco universal ou inteligência de igual calibre.
Por isso, sofri um baque de vago e aziago pressentimento quando entrou pela janela entreaberta da mansarda uma lufada de sons que me pareceu singular. Abri a vidraça e até onde se podia estender o meu raio visual, quebrado pelo ressalto do telhado, vi gente, gente que corria de baixo, singularmente ou por cachos. Vinha do Largo do Pelourinho, da Rua do Comércio, como tocada por um látego invisível, e, com maneiras descompostas, deitava a correr pela Calçada de São Francisco e a Rua Nova do Almada, como para pontos de refúgio.
Depois, as golfadas de gente foram-se multiplicando, e era a população transida, tomada de pânico, a furtar-se, dir-se-ia, a uma hecatombe. Ao mesmo tempo, chegou-me aos ouvidos uma zoada, cortada de gritos e estridências que me não soube explicar. E disse para comigo : então sempre era a sério ?
Mas se tiroteio tivesse havido, o seu eco teria chegado até mim, e eu não o ouvi. De forma que, não obstante nos dois extremos das ruas continuar um movimento de ressaca, atribuí-o a qualquer ofensiva da força pública, que provocasse aquele corrilório centrífugo da população como vi que acontecera no Rossio e no Largo de Camões.
Mas casualmente olhei para as janelas da Boa Hora, onde havia um posto de guarda, e notei que os soldados experimentavam as espingardas abrindo e fechando repetidas vezes a culatra móvel e metendo balas na recâmara. E fiquei de todo desassossegado.
Nos extremos da rua continuava a perpassar gente açodada agora como se às pessoas as propelisse uma deslocação de ar ou qualquer moto inaudito.
Subitamente abriu-se a porta de arranco e entrou no meu quarto Tavares de Melo, ao tempo redactor da Vanguarda, que era visita da casa:
– Mataram o rei e não se sabe quem mais da família real…
– Mataram o rei!? Que grande desacerto! – exclamei, não de pasmo nem de afogo, emoções próprias do súbdito comum de três dinastias, mas o republicano, que via ir por água abaixo as suas esperanças e o fruto da messe que alourava.
– Foi no cais, à chegada de Vila Viçosa. Houve fuzilaria brava.

– Mataram também o João Franco?
– Ouvi dizer que quem morreu também foram os assaltantes. Um deles deve ser por lá o doido do Alfredo Costa. Ainda ontem eu lhe estive a dizer: não se meta em cavalarias altas que o corpo é que lho paga!… Viram-nos mortos, literalmente trucidados… Ficou-me a olhar, fiquei a olhar para ele siderado de todo e rematou:
– Vinha para prevenir o Meira que figura nas listas do ostracismo. Adeus, vou averiguar o que há !

Quando os passos de Tavares de Melo se perderam ao fundo da escada, atirei-me de bruços em cima da cama. Tinha na fronte um cincho de ferro que não me deixava raciocinar e me obsidiava diante do facto assombroso e surpreendente, posto que no ar de Alfredo Costa eu houvesse vislumbrado ao vento do meu cepticismo a fímbria de uma intenção reservada.
Sim, dava conta agora que, por detrás do objectivo confesso, outro fosforejava, queria lançar âncora e arraigar-se.
Ninguém veio durante muito tempo aliviar-me da minha mortal ansiedade e pesadume.
Finalmente chegou Meira e Sousa que me pôs ao corrente do ocorrido, que lá fora era já do domínio de toda a gente. Repentinamente as torres, quantas torres havia à minha volta, a da Conceição Nova, a dois passos, com voz gritada de mulher, a da Vitória, criança a chorar, a de S. Julião, frenética, mais longe a de S. Nicolau, voz bem timbrada de pregador, e dos altos, os sinos do Sacramento e dos Mártires, ralhadores e cavos, lançavam aos quatro ventos, em suas breves notas picadas a defuntos, a nova formidável: morreu o rei !

– Escusava de vir-mo dizer! – disse para Meira e Sousa. – Bem ouço… A abóbada sonora erguia no céu uma teia inconsútil, dolente e azabumbante, a proclamar uma realidade fora das regras obituárias. Tendo começado com o anoitecer, prosseguiu pela noite dentro o coro de carpideiras celestes, cujo acento fúnebre penetrava até as pedras. E na Minha célula de fugitivo, trespassado pelas lanças aceradas de bronze, dei conta que as Euménides começavam a entoar o De profundis macabro, sobre mim, sobre toda a Lisboa, acordes que não modulou Wagner, e não sei se os Diabos de mais alada fantasia teriam descoberto para suplício de revoltados e insubmissos.

RECONSTITUIÇÃO DOS FACTOS

Pelo que me contou dias depois Humberto de Avelar, pelo que eu sabia, pelo que apurei do relato dissonante das gazetas e o que eu rectifiquei in loco com um dos conjurados e um falso regicida, que para o caso também conta como havendo elaborado do sucesso a síntese mais verosímil que convinha ao seu papel, os factos deviam ter-se passado deste modo : Debalde o grupo fora esperar João Franco à Rua Alexandre Herculano. O ditador, sabendose em perigo e acossado de um lugar para o outro, entrou mais uma vez a negacear com os perseguidores. Não lhe era difícil, dispondo dos órgãos de informação e torcendo-lhes as voltas. Os seus vários domicílios permitiam-lhe este jogo do Escondidinho.
Depois deste primeiro desencontro, havendo abancado momentaneamente no Gelo, onde viram que o Buíça se refrescara com um bock, acariciando muito a barba com reflexos de cobre, o que era sinal de tempestade interior, e, mais ainda, encravando repetidamente a mandíbula de baixo sob o lábio superior, gesto tão seu, e Alfredo Costa engolira um almoço apressado, sempre febril, passaram ao Rossio, a grande sala revolucionária, e aí deliberaram em comum ir esperar Franco ao Terreiro do Paço, à hora do regresso da Família Real.
Para Costa, já fazia parte do programa, dada a hipótese de o golpe falhar na rua para onde Franco anunciara ter mudado da Rua da emenda. Isoladamente, os homens dos Olivais atrás, e par a par, se dirigiram com boa meia hora de antecedência para o Terreiro do Paço.
Escalonando-se pela praça, Alfredo Costa tomou a posição do fundo, próximo do embarcadoiro, os três ficaram a deambular ao meio, da estátua de D.José para o centro da ala ocidental contra as arcadas, como ociosos, e Buíça postou-se na fímbria norte, não bem sobre o lancil, mas perto ou encostado ao candeeiro, na linha do prolongamento da Rua do Ouro, na atitude de indivíduo que espera outro, conforme entrevista marcada.
Constava do seu plano aguardarem ali João Franco, como caminho necessário para os cais. Cada um deles era sete olhos para quem entrava na praça, particularmente pela faixa ocidental, e ainda para a rua que a contorna do lado do Tejo. E o tempo foi voando e João Franco sem aparecer. Refere Rocha Martins que ele deslizara sorrateiramente por baixo das arcadas, sem que os conjurados o vissem, o que é de todo inaceitável, dado que era precisamente sobre esse trajecto que eles mais assestavam os olhos. Não, sorrateiramente tinha ele entrado pelo portão do Arsenal e daí transitado ao embarcadoiro, palmilhando de relâmpago o curto espaço a descoberto que dá acesso pelo sul ao Pavilhão da Marinha. O facto é que se lhe esgueirara mais uma vez, como homem experimentado em batidas nos matagais do Alcaide.

Entretanto, Costa e Buíça fartavam-se de bocejar. Só quem conheceu o génio de um e de outro pode imaginar qual seria o seu enervamento. Passaram por diante deles o landau com os dignitários, ministros, gente a pé, o major Dias, agentes da Secreta a avaliar pelos meneios artificiosos com que armavam em pessoas despreconcebidas, cortesãos ou funcionários públicos destacados à chegada da Família Real. E, por fim, uma sereia estrugiu, anunciou a chegada do rei com fragor lançando à serenidade da tarde, cerca da ponte de desembarque, a ronca marinha, amassada, dir-se-ia, de água salgada, aventura oceânica, gaivotas, ondas, e as tágides que escaparam às dragas do senhor Hersent. Alfredo Costa acercou-se mais da embocadura, que ali fazia a muralha do cais e o Pavilhão. Domingos Ribeiro pairava a distância, pronto a transmitir qualquer palavra aos outros conjurados.
Apareceu, depois de grandes delongas, que mais agravaram a hiperestesia dos conjurados, em daumont, a Família Real, os reis lado a lado, os príncipes em frente. Seguiu-se o carro com os camaristas, em vez do de D. Afonso, que se atrasara. E, no seu ritmo, os dos áulicos, e toda a cauda cometária de palacianos. E João Franco ? João Franco sumira-se novamente como um trasgo.
Desesperado com o malogro, mas ainda retido por um resto de expectativa, a que é vulgar atribuir-se a escrúpulo de consciência, Alfredo Costa chegou de dois passos ao pé de Domingos Ribeiro :
– Corra lá acima dizer ao Buíça que o filho dum cão tornou a escapar-nos…
Isto dizendo, voltou ao seu posto de atalaia, perto da muralha, a espiar a lufada de pessoas que irrompia da estação flutuante. Mas, ou porque o esporeasse a impaciência ou no seu espírito se desse por inútil continuar de atalaia, largou a grandes passadas pelo terreiro da praça acima, coisa de dois a três metros à banda do lancil. Ultrapassou primeiro o landau real, aberto, que avançava a pequeno chouto, depois o rapaz que levava o recado. E dum pulo estava ao pé do Buíça, engoiado no gabão, no jeito inteiriço de homem muito crispado por uma ideia fixa, e repetiu a mensagem :
– O filho dum cão escapou-se !
Decorreu um brevíssimo silêncio, o tempo de a descarga eléctrica da frustração percorrer os nervos de Buíça. Entretanto, aproximaram-se os outros três conspiradores, persuadidos que não havia mais nada a fazer do que porem-se a «cavar». Mas Alfredo Costa, fixando o olhar em Buíça, tornou:
– E agora ?… Se liquidássemos a cambada?
O carro aproximava-se lento como a gozar a doçura da tarde, os cavalos percutindo a calçada a chouto vagaroso. Buíça, desencostando-se do candeeiro, respondeu:
– Vamos a eles!
Fez um gesto a indicar a posição que ia tomar. Costa soprou para os três:
– Defendam-nos a retaguarda!
Já Buíça, de um salto, se plantava, em diagonal para a carruagem, a um terço da largura da rua, hirto como um atirador; sacudia para trás as abas do capote e, metendo a carabina à cara, visava. Alfredo Costa, por sua vez, caía sobre a carruagem que passava na sua frente.
Foi mais rápido do que se conta. Crepitou o tiroteio das armas de fogo e no primeiro minuto os assaltantes ficaram donos do terreno. Mas o oficial que galopava à estribeira, tenente Francisco Figueira, recobrando-se, precipitou-se à espadeirada sobre Buíça. A polícia, perante a sua acometida, ressarciu-se também e rompeu a disparar a torto e a direito sobre os vultos que se lhe afigurou fazerem parte da conjura. Dois agentes, quando Alfredo Costa cambaleava, lançaram-lhe a mão, e ao passo que o arrastavam para a esquadra, iam disparando os revólveres sobre ele, refeitos em seu domínio. Buíça continuava a estrebuchar com a carabina, acutilado pelo oficial às ordens, e tentando desenvencilhar-se dum soldado que se lhe viera meter nas pernas.
D. Carlos tinha caído cerce como um roble, debaixo por certo das balas de Buíça, e igualmente o Príncipe alvejado à queima-roupa por Costa. Então a carruagem real largou à desfilada, seguida pelas outras, tomadas de terror. Mas a refrega decrescia. O terreno quedava às forças da ordem. Um guarda civil de revólver em punho gritava como num fim de montaria:
– Já matei um !
De facto tinham fuzilado às cegas, contando-se entre os mortos um caixeiro de 17 anos, que passava, e ferido vários transeuntes. Muitos dos mirones que se encontravam na praça, curiosos acidentais, foram arrebanhados para a esquadra, que fica entre as traseiras da Câmara e o Ministério do Reino, e passaram as piores horas da vida. Viram os polícias espezinhar os dois regicidas e de novo esfoguetearem-nos à bala ; depois, voltaram-se para eles. O chefe do Posto interpôs-se. Parou ali a ameaça sobre as pessoas filadas ao acaso da mão.
(…)

DOIS PROTAGONISTAS

Condenável por si, pelas leis da vida e as lições da história, condenável ainda pela sequência política, até agora nefasta, do regicídio, não quis tecer um libelo com receio duns, e muito menos uma apologia para agrado doutros. Contei o que sabia e apurei com lisura e respeito absoluto da verdade. O regicídio foi a enfloração lógica de ideias, ódios e revoltas, semeados a trouxe-mouxe por monárquicos e republicanos num solo bárbaro, propicio à violência… Que tinha a esperar uma realeza mucilaginosa, atrofienta, caída no hebetismo, sem outras vistas sobre o horizonte do que conservar a pia farta? O regicídio, em tanto que obra singular, terá de integrarse no plano de demolição, intentado contra o Portugal obsoleto pelos espíritos livres e esclarecidos, desde a época liberal até os nossos dias. Os protagonistas foram o braço armado dessa propaganda. Apoucá-los ou engrandecê-los seria cometimento gratuito, que não cabe em cérebro com dois dedos de caco. Mas porque o regicídio em sua nebulosidade, em sua paradoxal concepção e feito, quedaria inexplicável sem o conhecimento psicológico das dramatis personnae, eu experimento pintá-las sob todas as reservas do meu fraco entender.
Pessoas que menos se parecessem : Manuel Buíça e Alfredo Costa. Aquele era do Norte; este do Sul. Um godo ; o outro árabe.

ALFREDO COSTA

Foi no corrente de 1906 que Raul Pires apresentou no Gelo um rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste, a que ninguém ligou importância. Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez que parecia de sonâmbulo e era de atenção, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. É provável que uma tuberculose descurada, traiçoeiramente seguindo caminho, lhe achatasse o tórax, aguçasse os ombros e lhe imprimisse às costas uma quebratura já perceptível.
Com ele, ao contrário de Buíça, não há que ter o historiador grandes canseiras psicológicas para fixá-lo. A sua figura moral inscreve-se num quadriculado de traços largos, quase rectilíneos.
Era um homem de uma só peça, crente até o iluminismo interior, instruído o que basta para reconhecer que a vida se decompõe numa tábua mais ou menos certa de problemas, de resultado dependente da vontade.
Donde saiu Alfredo Costa?
Há homens que, mediante uma luta surda e porfiosa com o meio que os acalca na sua condição de desvalidos e iletrados, sem mão alheia a guiá-los, sem luz externa que os alumie, bruscamente se «põem em marcha». Qual é a força propulsora, a energética do milagre ?
Um relâmpago que fulgurou, a mola da vocação que salta, um argalho, no caminho, que se levantou com o vento.

Alfredo Costa foi o homem, atirado para a cidade da aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, «se encontrou a marchar». Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, mansuetude de cordeiro. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias ; a vida com as facetas todas ; o homem em todos os planos. Educou-se como pôde, que mais não foi que abrir os olhos ao que via e tratar de compreender. Tudo o que era imediato apreendeu-o ; tudo o que era bradado alto, ouviu-o. Nada mais receptivo que a simplicidade do camponês ; nada, ao mesmo tempo, mais susceptível á síntese. Para a improvisação intelectual de Costa, a revolução pregada em 19o6-907 devia ser, com suas promessas de resgate, a ideia adequada. E daí até a paixão, o estado de consciência que implica uma aptitude desenganada para todos os extremos, a distância não era pequena.
Por uma vereda longa, mas directa, decalcada segundo tais tópicos, chegou Alfredo Costa ao regicídio. Olhe-se para ele, lá longe, ao despedir da planura alentejana, tão cheia de ascetismo que parece destinada a implantarem-se ali calvários ululantes de supliciados.
Que trouxe com ele, envolto no roto sudário mouro, mal passado nas águas cristãs, que não fosse rebeldia latente, noção da própria mesquinhez, fome de humanidade ? O transporte da vida para um plano sobrenatural deixa o Alentejano indiferente.
Siga-se, antes de firmar o pé no chão movediço da cidade, na ofuscação e desvanecimento da sua condição de rústico, em contraste tratado como cachorro malhadiço por patrões e ricaços. Observe-se ao impregnar-se do evangelho revolucionário, aquecido em sua pobre alma ao calor da propaganda, sentindo o orgulho de tornar-se militante, futuro paladino talvez.
Estude-se na vontade férrea – porventura o que havia de mais vincado nele – uma vez determinada, concentrando-se ao serviço da causa, e compreender-se-á que, quando todos fogem, quando tudo falha, estava na lógica da sua pessoa moral cometer o acto terrível, para ele de dignificação e de sacrifício.

Tinha na sua sina de ser assim. O seu republicanismo acabara por tornar-se exclusivamente um clima de consciência, soberano e despótico. Não lhe faltava nada para carrasco ou herói: coragem, decisão, porque não duvidava, e o fanatismo que existe sempre que acima do espírito, povoado por vaga floração, paire um só pensamento.
Alfredo Costa era, além disso, um puritano estrito a conduzir-se e a avaliar as criaturas e os seus actos. A ameaça era uma das atitudes que mais lhe eram peculiares. Uma perplexidade, uma quebra de palavra, uma ruptura do dogmatismo a que submetia tudo, sofriam a condenação da sua boca e o correctivo, às vezes, dos seus punhos. Se os senhores representantes da Nação mais uma vez nos votarem ao olvido, resta-nos a certeza de que os marmeleiros ainda crescem nos pauis – escrevia ele em 1903. Tentar esmagá-lo (o opressor) num justificado impulso de revolta é um dever de todos nós – dizia ainda em 1906. Na loja maçónica a que pertencia tornou-se proverbial esta sua espada em riste, não apenas de Dâmocles. Noutro número do jornal escrevia: Sou pelas greves, como sou por todos os meios de resistência empregados pelo fraco, pelo oprimido, em defesa dos seus mais legítimos interesses quando extorquidos pelo forte, arvorado em opressor. […] Sempre que um Patife tenta ferir a nossa dignidade ou um ladrão nos quer tirar a bolsa, é dever sagrado atirarmo-nos a ele sem olharmos às forças de que dispomos e às consequências da luta.
[…] Para os patrões burgueses que nos exploram, e nós servimos sabujamente, vai o meu mais activo ódio e a minha viva repulsa.
Rígido com os outros, era-o ainda mais consigo. Assim, como salariado, passou dias inteiros sem comer, escondido, com vergonha de que o vissem soltar uma queixa, incapaz de estender a mão a quem quer que fosse. Rebelde por índole, professando o conceito que era ominoso para a sua qualidade de homem aceitar tutelas ou favores, mormente quando tinham a recomendá-los as leis do parentesco, quebrara as relações com o tio, abastado lojista estabelecido em Lisboa, que, parece, o estimava e era benévolo a acolhê-lo. Como empregado, tido em apreço, repugnava-lhe sentir sobre o ombro a mão do patrão. Nisto ainda, palpita-se a submissão excessiva da vontade a uma regra de independência. Numa das suas crises de revolta e, consequentemente, de miséria, atirou-se certo dia, na Rua Augusta, para debaixo do carro eléctrico que passava. O guarda-freio travou a tempo, e saltando abaixo, ao passo que o desancava, apostrofava-o:
– Seu malandro, quer-me desgraçar !? – Tem razão, homem. Perdoe !
Alfredo Costa, que era pundonoroso, contava isto, depois, simplesmente, sem ressaibos de amor-próprio, reconhecendo-se merecedor do castigo.
Tudo o que cintilasse ao seu espírito como uma obra de justiça, a praticar ou praticada com ele, rendia-o de pés e mãos ; para com os outros, apaixonava-o e a causa alheia fazia-a sua. Era um romântico, formado para a vida civil nos Mistérios do Povo, para a política, a ouvir a cantata de Convenção por toda a plêiade de idealistas impenitentes. Não era um extremista; o seu sentido de ordem social tolerava as espigas altas da seara humana.
Era um homem dinâmico, mas com a actividade pressurosa e febril dos impacientes. Acima de tudo um probo e digno lidador.
Em Angra do Heroísmo fundou um jornal para defesa dos empregados do comércio, e tão bem conduziu a campanha das suas reivindicações que ao cabo de tempos vigorava ali o repouso hebdomadário. Em 1903, em Estremoz, fez intensa propaganda republicana e daí começou a colaborar nos jornais de classe da capital, sempre homem de fé e dedicação sem limites. Foi caixeiro-viajante, e presidiu à Associação dos empregados do Comércio de Lisboa. Depois, mediante um pequeno capital, emprestado por mão amiga, fundou uma pequena empresa de livraria, A Social Editora, onde foram editados alguns folhetos contra o regime.
Encetou ainda a publicação em fascículos, distribuídos aos domicílios, do romance de índole popular : A Filha do Jardineiro. Na empresa embrionária e mal sucedida consumiu Costa o seu pecúlio, que não era muito. Ainda nesta tentativa transparece o abnegado. Procurava-se dar uma machadada na carcomida árvore real de sete séculos e Costa trazia o que tinha: a sua inteligência modesta, o seu dinheiro – a sua vida por fim. A República, ou melhor o mundo dos Idealistas, em boa verdade, não pode enjeitar este nome embora morresse em fereza. Depende das vicissitudes duma obra o galardão que a posteridade reserva aos precursores.
Assassinos ou Guilhermes Tell, os destinos da República lavrarão a Costa e a Buíça o epitáfio definitivo. O qualificativo, porém, depende do bom ou mau êxito global das Instituições que ajudaram a fundar. Porque é desnecessário demonstrá-lo, um sol novo, banhado na púrpura que mais aprazia aos antigos deuses, teve naquela tarde trágica de Fevereiro o seu oriente, pese bem embora aos senhores pausados, vazios ou bons burgueses, que disso e doutros desatinos sobem a sacudir as mãos na varanda de Pilatos.
Planeada a revolução pelo risco e indústria de António José de Almeida que, para o civil, tinha como lugar-tenente a Luz de Almeida, Costa arranchava no grupo que devia assaltar o Palácio Real, depois, por uma modificação da estratégia, o Quartel dos Lóios. Na noite de 28 de Janeiro, data fixada para o movimento que abortou desastradamente no elevador da Biblioteca, a hoste, grossa de vinte homens, que tinha à sua testa Costa e Buíça e como um dos soldados de linha Humberto de Avelar, artista de raça, frágil e delicado como uma mulher, experimentou ainda o fogo da Guarda, nas imediações da Rua de Santa Bárbara, quando aguardava que um morteiro desse o sinal de revolução.
A partir dessa manhã confusa e atarantada, o governo de Franco empreendeu a lógica e inevitável obra repressiva. Foram presos os membros do Directório, as personagens em evidência do partido, e daí passou-se à caça dos revolucionários subalternos. A desordem e o pavor lavraram então nas fileiras republicanas, que antes pareciam firmes e ordenadas. O Tejo e os quintais foram o coval de infinitas cestadas de bombas. Nos quartos andares, os revolucionários davam-se tratos de imaginação para esconder as pistolas e abbadies de contrafacção espanhola com que deviam fazer calar as kropatcheks e peças de tiro rápido das forças lealistas. Fugiram para terras nunca vistas nem sonhadas ou sumiram-se pelo chão os chefes e subchefes do movimento. Franco triunfava em toda a linha.
No meio do pânico geral, Alfredo Costa era um dos conspiradores que não arredavam do seu posto. Deserta e melancólica quedava a pequena sala traseira do Gelo, sempre tão frequentada e turbulenta. Estavam presos ou escondiam-se os intelectuais, Ferreira da Silva, Granger, Duque, arredios e avessos, aliás, às grandes aventuras cruentas. À parte Buíça, que abancava imperterritamente, os outros passavam de esfuziote, rápidos e silenciosas.
Fechados os Centros, suspensos os jornais, prisões à cunha, pelas ruas viam-se passar rebanhos inteiros de homens, enquadrados por guardas a cavalo.

Mercê do acaso, imprevidência da polícia, o descaro com que revestia idas e vindas ou o quase anonimato da sua pessoa, Costa continuava livremente pela cidade, congregando os elementos que, dispersos, sobreexistiam ainda, teimando sempre, mensageiro intrépido e expeditivo daqueles que acaçapados nas luras guardavam uma réstia de esperança. Com Machado Santos e Soares Andrea se encontrou algumas vezes, a recato do sigilo de que cercavam seu asilo.
– Se algum bufo me deita a unha – dizia Costa palpando a browning na algibeira da calça – queimo-lhe os miolos.
Em pleno desânimo geral, Costa insistia sempre para que se tentasse o lance. Onde paravam os dois terços da força pública com que António José de Almeida contava para derrubar a Monarquia? Onde parava toda a vasta e poderosa teia de revolucionários civis que deviam, escalonados contra cada um dos bastiões do Poder, iniciar o ataque?
O movimento parecia travado com mão de ferro ; Franco continuava a varrer o terreno implacavelmente.

MANUEL BUÍÇA

Conheci Manuel Buíça no Gelo. Manuel Buíça era dos mais assíduos frequentadores desse cafmuito arrumado á margem do Rossio tumultuário, que, não obstante o berrante das fardas, conserva ainda hoje o ar plácido de botequim provincial. Às suas horas, nas meias manhãs preguiços de Lisboa, quando, lentas e doces, os senhores burocratas vão pelas ruas abaixo mais brandos que em liteira, ou à noite, depois do jantar, Suíça era certo à mesa branca, na parte que olha a Rua do Príncipe, um cálice de conhaque à frente, a fazer a correspondência ou cavaquear alto com conhecidos ou próximos. Buíça não era desses que se isolam na turbamulta e precisam da turbamulta para se isolar. O Café significava para ele o cenáculo, a roda de amigos a que levava a sua amizade, a vozearia a que misturava a voz. Tão despótico era nele o instinto de sociabilidade que não sabia enxotar da sua beira indivíduos de má nota e malandrins garantidos. Dentro de si, melancólico ou a cismar, como tantos moinas de café, na avó torta ou em sapatos de defunto, nunca o encontrei, nem tal atitude era compatível com o seu temperamento vincadamente buliçoso e dispersivo. A vida exterior empolgava-o, consubstanciava-se com ele, sem lhe deixar um refolho, um canto reservado, em tudo, pensamentos e obras, mais trespassável à vista que o próprio vidro.
Curioso este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais resistentemente nacional, celta, suevo que aflorasse na linha longa das gerações, genuíno, inquieto e batalhador, do nateiro da raça. De corpo, era homem de estatura meã, rosto fino, tez branca a que dava realce a barba preta com tons de fogo, na qual as mãos lhe tinham o vício de passear-se, de embrenhar-se, quando a cólera o tomava ou ouvia alguém do seu agrado. A testa era espaçosa com arcadas superciliares marcadas sem demais, as linhas fisionómicas duma delicadezaque, fora das mulheres, desagrada. A aparência, toda ela de franzino, mascarava-lhe inteiramente o génio assomadiço e a coragem que não era tarda nem jamais foi receosa a medir-se. Parecia um delicado – destes homens para produzir os quais a vida das cidades esculpiu sobre a carne de gerações e gerações, desengrossando, limando, amaneirando – e era uma planta vivaz das serras. Só os olhos muito móveis e azuis, mas sem crueza, traíam nele o ânimo expedito e a índole que, além de resoluta, era exaltada. Os seus modos espalhafatosos seriam detestáveis se não houvesse a contrabalançá-los uma grande e sincera franqueza, da mesma forma que «aquele dar-se todo» torná-lo-ia suspeito se o seu carácter se não descobrisse até os planos mais remotos. Muito mais que a identidade de ideias haviam-no imposto ao grupo revolucionário do Gelo, que paradoxalmente via o mundo através de Nietzsche e dos pensadores russos, as virtudes do homem instintivo, generosidade, espontaneidade, poder de estimar e admirar, ao contacto dos quais o homem de pensamento se desvanece e toma de estima.
Buíça era republicano – o que ao tempo, em muitos, significava política da extrema esquerda, contudo menos por convicção profunda que por flânerie do espírito. Para seres e coisas que se movessem fora da sua esfera não tinha paixão e muito menos interesse. A sua fisionomia peculiar era a de céptico, jogando um desdém vulgar sobre tudo.
Agora, comprazer com os amigos era nele uma força cega e despótica até o absurdo. Uma fineza que lhe fizessem tornava-se em grilhão. A sua vontade, que não era frouxa, desfazia-se perante amigos como a cera. Pedissem por boca. Por vezes inflamava-se em ardor revolucionário e era ainda por aquela sua necessidade psíquica, elementar, de se pôr em assonância com os camaradas.
Visto nos predicados de sociedade, era Manuel Buíça o que se chama o homem moderno. Cavalo rebentio que aparecesse no picadeiro Gagliardi domava-o ele. Os seus pulsos finos aguentavam ainda firmes a espada francesa quando no assalto já os outros fraquejavam.
Nas praias, mormente ali naquela Algés, a dois pulos do Gelo, não havia braços de nadador que mais longe açoutassem o mar.
Tanto a sua mentalidade como a sua cultura literária não eram comuns. Professor no Colégio Moderno, dava a impressão de possuir uma inteligência lesta, muito compreensiva, assimilando sem esforço, mas também sem perdurabilidade. Tinha, no entanto, um sentimento bastante largo da vida que nas horas de excitação costumava traduzir pelos baixos epifonemas dum pessimismo exagerado. Praguejava como um borracho diante da porta fechada.
Não era um espírito raro, mas não tão simplista que enfadasse. Em regra, via as coisas linearmente, menos por incapacidade que por preguiça em discorrer. Era, como o carácter, um temperamento todo alotrópico.
Simpatias granjeava-lhas, em natural reversão, aquela plasticidade simpática para todos e a auréola de destemido ganha em bulhas e desafrontas. Buíça era do barro dos Antónios de Faria sempre pronto a dar e a levar. As suas proezas tomavam já tom lendário, com os admiradores e aedos de café a decantar-lhas. Em verdade Buíça era valente posto que fanfarrão.
O fanfarrão esconde por via de regra o pusilânime, e aqui anunciava o forte. Se dizia : «parto-lhe a cara», partia mesmo a cara ao tipo. No teatro da Rua dos Condes bateuse uma noite com a plateia toda ; esmurrou, numa tarde de S. João, as ventas do administrador da Azambuja, que era homem alentado e pimpão, no meio, para mais, da sua roda de pimpões; no caminho ermo de Linda-a-Pastora vi-o avançar contra o revólver, que um revolucionário lhe apontava ao peito, com uma fúria tão selvagem que, a segurá-lo, lhe desnoquei o pulso.
Era isto tudo, galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais de uma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral, uma ou outra anomalia medrando a meio de sentimentos que, além de serem puros, pareciam dever ser inibitórios.
Assim Buíça, que era pai de família extremosíssimo, se não exacto, consagrando aos filhos uma adoração sem limites, a pontos de, tresnoitado ou embriagado, o que por vezes sucedia, se não poder deitar sem os beijar e se abraçar neles, prezando a esposa, entabulou ainda em vida dela correspondência delico-doce com uma menina de Lisboa.
Este marivaudage do coração dá a nota do ânimo leve de Buíca. Em suma, era um misto curioso de nobreza espontânea, mas sem fundo, de grande sensibilidade em que entrava por muito a imaginação, de inteligência fácil e clara mas pouco tenaz.
Além disso, consciência inclinada à prática do bem e à magnanimidade, mas indolente, abandonando-se ao curso das coisas ou procedendo por arrebatamento. A par disto, ausência completa do sentimento de responsabilidades e miopia no prever as repercussões dum acto. Buíça era argamassado, em grau extremo, das virtudes e falhas da terra portuguesa, num lineamento ora confuso, ora recto, sendo as contradições a sua lógica, como o ar efeminado a sua maior mentira.
(…)

a grande fábrica dos santos

“Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus.”

Millor Fernandes

depois das muitas tentativas de branqueamento do pioXII (papa nazi) cúmplice mais que provado do holocausto, temos um santo masoquista. este (JPII) flagelava-se para estar perto do seu deus – estamos todos loucos?… engolimos estas patranhas da padralhada?… e,já agora, isto é informação jornalística?…

AS COISAS

Ilustração de Pedro Sevylla de Juana

As coisas multiplicam-se
muito mais que as pessoas. Só elas
possuem o segredo de tranquilamente jazer
entre as ervas, as águas, as ruínas
ausentes e presentes. A sua pele
é mais fina que a casca dos minutos
e contudo, sob o lume e o vento
sob a terra em que os passos já não soam
ou no deserto violento das palavras
as coisas repousam
ou, subitamente iluminadas
gritam e falam-nos com movimentos graves
adejando como estranhos pássaros nocturnos
ou como trémulos animais interditos.


As coisas
sofrem
elas sofrem como se existissem noutra esfera
próxima de nós
como uma Lua oculta, como um peixe fantasma
como uma flor solitária numa casa abandonada
como um gato que no sono se agita pleno de medo
As coisas
minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós
ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera
sob as nossas mãos
entre os nossos cabelos
repousando junto a nós quando dormimos
calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina
As coisas
respirando devagarinho nas nossas memórias
andando junto às nossas recordações como se fossem
um elefante, um rato, um cão fiel
feitas de barro, as coisas
de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento
feitas de cristal e de platina, de celulóide
do fresco celofane, de aço e de papel
pobres coisas num rés-do-cão amontoadas
esquecidas como um trapo manchado
livres e belas
nosso testamento, papiro para milénios a vir
As coisas
sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar
o silencio luminoso
As coisas

nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito
neste universo que é o nosso resumido encontro
com a sua

eternidade acontecida.

(NS, in Os Objectos Inquietantes)

As palavras em jogo

As palavras em jogo
pelo seu autor, José do Carmo Francisco

Está quase a chegar às livrarias este livro de 220 páginas que recupera do pó do relativo esquecimento 30 entrevistas e 1 memória, lembrando deste modo 30 anos de jornalismo. No universo multifacetado dos entrevistados há um abrangente olhar sobre o Desporto e a Sociedade: Álvaro Cunhal, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, António Roquete, Carlos Mendes, Clara Pinto Correia, Daniel Sampaio, David Mourão-Ferreira, Dinis Machado, E.M. Melo e Castro, Eduardo Guerra Carneiro, Eduardo Nery, Fausto, Francisco dos Santos, Francisco José Viegas, Helena Marques, Joaquim Pessoa, José Duarte, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, José Nuno Martins, José Quitério, Lídia Jorge, Luís Filipe Maçarico, Mário Jorge, Matos Maia, Mia Couto, Nicolau Saião, Rita Ferro, Romeu Correia e Urbano Tavares Rodrigues.

As entrevistas e a memória de Francisco dos Santos (1878-1930), o primeiro português a jogar em Itália, foram publicadas entre 1992 e 1996 na revista Bola Magazine que entretanto cessou publicação. Algumas delas foram mais sintéticas devido à falta de espaço mas todas apresentam o interesse do depoimento das diversas figuras públicas sobre a sua relação com o Desporto. Apenas dois aspectos: primeiro – algumas delas trazem anexos em verso e em prosa do entrevistado que muito enriquecem o conteúdo final; segundo – a partir destes textos é possível organizar um perfil do futebol em Portugal no século XX desde a memória de Francisco dos Santos em Roma na primeira década ao Eusébio da década de setenta aqui recordado por José Duarte passando pelo Mário Jorge dos anos oitenta e sem esquecer António Roquete que jogou nas década de vinte e de trinta além de Francisco José Viegas que recorda Madjer e Dinis Machado que lembra nomes dos anos 40, 50 e 60 como Araújo, Passos, Jesus Correia, Arsénio, Vasques, Travassos, Germano, Matateu, Jaime Graça, Hernâni, Águas, Humberto Coelho, Ian Rush, Yazalde, Carlos Gomes, Azevedo, Bento, Banks, Yashine, um nunca acabar de homens, de memórias e de mitos. Sem esquecer as motos de Eduardo Guerra Carneiro e as bicicletas de Lídia Jorge.

kyushu – medicina japonesa (parte I)

kyushu – do livro de medicina japonesa

no triploV

triplov.com

HAITI

O legado profético de Zilda Arns: Leonardo Boff
Se preciso fosse, ao Mundo,  apresentar o meu País: J.-Fr. Brièrre & Joana Ruas
Urgência: Eduardo Aroso

*
TriploG – O blog do TriploV

*
O JARDIM ZOOLÓGICO DE LISBOA
Um belo parque

O Siamango não é um excelente cantor?

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ARTES | CIÊNCIAS | RELIGIÕES

Vestido: Raimundo Gadelha
Velha estação: Romildo Sant’Anna
Germinal: Luís Costa
O cientista faz, o artista realiza e o crente celebra: António Justo
Miséria na cultura: decepção e depressão: Leonardo Boff
A Propósito de Gherasim Luca: Nicolau Saião
Pintura digital: José M. Silva
O ensino da Retórica: Adelto Gonçalves
Três poemas de O Nome e a Forma: José Augusto Mourão
O Deus escondido de Frei José Augusto: Maria Estela Guedes
(na Velocipédica Fundação: http://fundacaovelocipedica.wordpress.com/ )
Entrevista a Luiz Pacheco por José do Carmo Francisco (pdf)
Louvor à Terra: Paulo Brito e Abreu
Una entrevista de Enrique Servín a Rubén Mejía

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NOVOS NO TRIPLOV
YASMIN JAMIL NADAF
Dezembro é tempo de almanaque

DEBORAH PELLEGRINETTI
Entrevista a Belkis Cuza Malé

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REVISTA TRIPLOV DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS

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CICLO DE CONFERÊNCIAS «DIÁLOGOS COM A CIÊNCIA»

Outubro 2009 a Março 2010 – Reitoria da Universidade do Porto | Programa
Ciência e Arte – 28 Janeiro 2010 – 21:30
Paulo Cunha e Silva, Rui Vieira Nery e Paulo Ribeiro

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ENCONTRO INTERNACIONAL
«Realismos: antigos e novos»
CICTSUL . ISTA . TRIPLOV
6 de Fevereiro

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IX COLÓQUIO INTERNACIONAL

Discursos e Práticas Alquímicas
Benedita . 29-30 de Maio de 2010

epipiderme-encontros à volta da performance

20 de Janeiro 2010, 22H

(todas as 3as quartas-feiras do mês)

A performance parece propor a participação como valor fulcral, tanto na construção da acção, pedindo uma experiência real ao performer que se afasta da representação do teatro convencional, assim como no apelo a um esforço de atenção
e interactividade com o espectador, que pode não ser um sujeito passivo.
A performance neste sentido poderá proporcionar também simultaneidade, já que acontece uma espécie de nivelamento entre a vivência proposta pelo artista e a vivência do espectador.
Estas questões da participação e da simultaneidade parecem, como problema, desembocar naquilo a que o Filósofo José Gil trata como inscrição, quando fala de Portugal como o país da não-inscrição: “Nisso, como em tantos outros aspectos, o Portugal de hoje prolonga o antigo regime. A não-inscrição não data de agora, é um velho hábito que vem sobretudo da recusa imposta ao indivíduo de se inscrever. Porque inscrever implica acção, afirmação, decisão com os quais o indivíduo conquista autonomia e sentido para a sua existência“, citando a partir do livro: Portugal, Hoje. O medo de existir.
A performance parece concentrar-se neste esforço de, em tempo real, produzir um acto capaz de ultrapassar essa espécie de prisão, da repetição do quotidiano, no seu entramado de ligações e necessidades; provocando um rasgo existencial que produza algo mais real e entendível que uma imagem estereotipada e já apreendida do mundo; procura-se na voz e no modo de ver especial de um outro que se dá a conhecer, uma forma de conhecimento.
Espera-se com este espaço que este outro se revele e o seu respirar produza uma reacção epidérmica.
Lugar de encontro, a Fábrica de Braço de Prata dará a possibilidade de dar visibilidade à prática da performance e à sua fruição por parte de um público variado.

Andrea Pagnes & Verena Stenke

Gilberto Gaspar

Nuno Oliveira e Margarida Chambel

Tzitzi Barrantes

Programa do dia 20 de Janei ro 2010
Performance:
Andrea Pagnes & Verena Stenke (Alemanha) “SPEAK THAT I CAN SEE YOU”
Gilberto Gaspar (Portugal) “Transbordo”
Nuno Oliveira e Margarida Chambel (Portugal) “Hà muita gente a existir ao mesmo tempo”
Vídeo performance:
Tzitzi Barrantes (Colombia) “A La Espera”

Fábrica Braço de Prata | Exposições | Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº1, 1950-128 Lisboa Portugal
exposicoes.bracodeprata@gmail.com | www.bracodeprata.com

Filo-Café “Algarve” 2001

inscrições abertas para o Filo-Café do Algarve (nos comentários deste poste com indicação de mail e outras formas de contacto)

há muito filho de puta à solta!…

Munilla: “Hay males mayores que lo de Haití, como nuestra situación espiritual”

El ultracoservador obispo de San Sebastián, José Ignacio Munilla, ha asegurado hoy que “existen males mayores” que los que están sufriendo “los pobres” en Haití, como “nuestra pobre situación espiritual”.

En esos términos se ha expresado en una entrevista a la Cadena Ser, sobre una catástrofe que hasta el momento ha causado decenas de miles de muertos y tras recomendar a Zapatero evite acercarse a tomar la Comunión por su ley del aborto.

mais: aqui

revista domador de sonhos


em “domador de sonhos” podem ver


Infracções - design de Luísa Coder e José Russell / texto de Bárbara Coutinho

Tarot discordiano – projecto de Manuel Almeida e Sousa

Possibilidades de la Performance en España y Portugal – texto de: José Luis Campal Fernández

Poemas visuais – por António Gomez

projecto: postais (mail art) – colecção de abdul affi (I parte)

Victor Belém – 50 anos de arte (arquivos de imagem)

Dria e Caim – um texto de alberto augusto

Poeta – de manuel almeida e sousa

3 poemas – a palavra, o paneleiro, o cabrão…  por nicolau saião

3 Poemas – canção amargura, ode com o fardo e contemplação em círculos por renato suttana

Louco – por fernando esteves pinto

quatro visuais – de fernando aguiar

2 fábulas – de vergilio alberto vieira

Javier seco – apontamento ilustrado da obra

Receitas – por -João Daniel (poeta bêbado e sportinguista ao fim-de-semana)

nos 30 anos de MandrágorA

entrevista a manuel almeida e sousa – por josé bivar (jornal postal do algarve)

Mandrágora em ArteserieS – Faro 9 de maio de 2009 – sequência de imagens/foto-performance – acção de bruno vilão e gonçalo mattos

Mandrágora homenagem a Mário Cesariny – faro 6 de junho de 2009 (sequência de imagens) acção de Gonçalo Mattos – apoio m. almeida e sousa

Entrevista a Bruno Vilão – destinada à revista “Bicicleta”

Entrevista a Manuel Almeida e Sousa – destinada à revista “Bicicleta”

Esta edição está também disponível em formato PDF nesta página

na galeria novo século

Primeira exposição de 2010 na Galeria NOVO SéCULO
dia 14 de Janeiro pelas 21,30 H.
VIVÊNCIA

Pinturas e Desenhos de Catarina Garcia

O DEUS ESCONDIDO DE FREI JOSÉ AUGUSTO

por Maria Estela Guedes

José Augusto Mourão acaba de publicar um volume de 320 páginas em que reuniu os seus poemas inéditos e publicados, «O Nome e a Forma», prefaciado por José Tolentino de Mendonça (Lisboa, Assírio e Alvim, 2009). O título, de tão descarnado, é mais consentâneo com a sua especialização em semiótica do que com a poesia. Contraste entre formas de expressão, dele sairá vencedora, no entanto, a  voz do afecto. Nestes pontos de tensão verificam-se rupturas, o que traz como resultado um tom novo para a poesia religiosa. Aliás, esta poesia, por ser assumidamente católica, aparece como algo de novo na nossa literatura mais recente, em que o fenómeno religioso, ou não se identifica com o catolicismo, ou, a identificar-se, confere à poesia a pátina do anacronismo e do estereótipo.
São-me por vários modos familiares os poemas, alguns porque ditos por mim em ofícios religiosos ministrados pelo autor. Experiência que alia a estranheza da situação a uma camaradagem com o poeta já entrada em anos e por isso consolidada em amizade. São vários assim os caminhos da interacção entre escrita e leitura, e esse, o da comunhão da poesia no espaço sagrado, devido a alimento mais divino, não deixa de causar perplexidade, sobretudo no drama das mais íngremes contradições. Adianto que não tem sido só a poesia de Frei José Augusto a eleita para as suas liturgias, outros poetas nesse «quando» entregam versos à oração.
É pois de poemas católicos que o livro se constitui, e não são poucos os problemas que levantam, pelo menos a mim, que sou pessoa de poucas crenças e de menos fé ainda, e por isso mesmo, e não pelas razões contrárias, pratico, e concordo com algum pensamento contemporâneo, segundo o qual a crença deixou de ter significado, mais pertinente do que ela é a necessidade; e pensamento que fala de uma «presença real» na arte, o partir de um real em demanda de outro real. A esse real dá George Steiner o nome de Deus, num livro cujo título já se embebeda em realismo: «Presenças Reais».  Eis a decifração da primeira parte do título de José Augusto Mourão – o Nome dele é mais do que provavelmente o de Deus. Para o segundo, a Forma, não disponho de chave num quadro de desambiguação. Mas precisamente: há muitas formas de perseguir Deus, ou de invocar o seu nome. A mais óbvia é a oração, quer dizer, o esforço de estabelecer contacto com Deus através de palavras não estereotipadas que, no caso, são os poemas de «O Nome e a Forma».
Será inoportuno contar uma história pessoal? Arrisquemos um lance biográfico. O nosso povo ensopa-se em missas, já não é a primeira vez que oiço padres recomendarem do altar que as almas não precisam assim de tanta encomenda. Não precisam, acho que os vivos precisam mais delas do que os mortos, mas adiante, vamos ao relato pícaro. Certa vez trouxe um terço de presente a Frei José Augusto, de regresso de viagem a algum lugar mais santo. Ele ficou a olhar para mim, sem saber se havia de me pregar ou não na cruz de alguma homilia. Posto um silêncio escrutinador, ficou-se pelo declarar que não usava terço. Não reza o terço?! Que não rezava. Para que precisaria Deus das suas orações?
Pois é evidente, Deus, na sua omnipotente envergadura, não precisa de nada, quem precisa somos nós, e rezar é uma boa ocupação para a mente, especialmente quando as orações são boa literatura. Aliás, a poesia é boa prece, como Frei José Augusto demonstra. Insuportável é a repetição do que se torna realejo de baixa cultura.
Isto para dizer que não rompemos os joelhos em adros de devoção comum, o autor é pessoa dada a reflexões de ordem mais elevada, o que não resolve nenhum dos problemas que a sua obra levanta, e o maior deles, na minha perspectiva, é o de ser ministro de uma Igreja que põe como dogma a omnipresença de Deus (Deus está em nós, Deus está em todo o lado, e por isso, por mais forte razão ainda, Deus está no templo, a sua casa) e contra o dogma se erguer com as palavras de «Deus absconditus»:

onde estás, Deus libertador,
que nos perguntam por ti e não te vemos?
Deus escondido, onde estás?

Problema exposto, sangrando na cruz, talvez não para este emissor que às vezes se vela por detrás do frígido manto da Semiótica, sim para nós, que nos fixamos nos nomes e nas formas de que o afecto se reveste, é este de nos confrontarmos com um homem da Igreja, apaixonado por Deus, que nos garante que Deus não está entre nós. Existe mas não está. É Ser, mas não ocupa lugar, portanto o seu reino não é matéria neste mundo. Diferentemente de George Steiner, para quem Deus é uma presença real na arte, Frei José Augusto estende o braço para mostrar aos crentes o templo vazio: «Deus não está aqui». É a maior de todas as feridas, esta de reconhecer para si mesmo que o sentido de Deus é o esforço do Homem para se encontrar. Visto o choque de um lado científico, o meu, v.g., essa é a grande necessidade do divino, ele provoca a impulsão do Homem para o alto, com a evolução e aperfeiçoamento daí decorrentes.
Deus não está entre nós mas vive algures, fora de nós e fora dos templos, escondido, como garante logo na portada do livro o enigma da Esfinge, sob o título de «Deus absconditus». Mistério a revelar, o do Deus abscôndito, eis o sentido da religiosidade, segundo a minha leitura.
Deus criou o Homem e depois retirou-se, abandonando-nos ao nosso destino. E o nosso destino, agora, é viajar em sua demanda. Toda a tragédia de Frei José Augusto se desenvolve então numa busca intérmina, na dor da falta que impulsiona à peregrinação para testemunho da manifestação divina, noutro mundo e noutro tempo. O Homem identifica-se com o Cristo que se lamenta, na agonia: «Pai, porque me abandonaste?»
É uma poesia de pathos, dificilmente acessível às ideias vulgares, mas muito facilmente acessível no que nela é partilhável: o sofrimento das inteligências contemporâneas demasiado próximas da ciência para aceitarem sem provas, inquietas, carentes de fé e de crença, mas cientes de que Deus é uma necessidade humana, e por isso repletas do que tende a substituir o dogma da fé: desejo, vontade e esperança.
Frei José Augusto, dominicano, expõe-se neste livro muito mais do que no ensaio ou na homilia, ele abre as feridas, pois todos as temos, à avaliação e exegese do olhar estranho, de acordo aliás com o que teoriza em texto próprio de abertura, «Luz desarmada», por exemplo no ponto 6:
«Expor-se à luz pública é mais do que um acto de comunicação entre um emissor e um receptor: ‘Não te fixes em mim e eu tão-pouco me fixarei em ti» – é este o sentido do a priori da comunidade de comunicação. Expor-se é testemunhar do Sopro’».
Mais do que comunicar, a exposição implica o estabelecimento de relações – Deus é a máxima fixação: suporte, segurança, salvador e amado. Nada porém garante que o amor seja retribuído, mas o amor tende a ser gratuito, ou vale tanto mais quanto mais gratuito é, como de resto é próprio da condição de Deus – «Deus é gratuito», escreve-se em um dos poemas deste livro.
Como se nota, o catolicismo de Frei José Augusto está muito longe das sacristias. Ao dar Deus como Ser de questa e Ser gratuito, ele desafia o nosso mundo a ver o resultado da substituição que fizemos dos valores espirituais pelos materiais, em que, no mais alto pedestal, reluz o bezerro de oiro. O que resta é um abismo.

DOIS POEMAS DE «O NOME E A FORMA»

Deus absconditus

onde estás, Deus libertador,
que nos perguntam por ti e não te vemos?
Deus escondido, onde estás?
devemos procurar-te entre os destroços,
a cinza e as mãos cortadas como canas verdes,
ou à frente das batalhas,
entre os que caminham como o vento
e as folhas das plantas, sensíveis à luz,
entre os que vão de cabeça alta e regressam
da servidão do saco e do tijolo
os que acordados vêm,
os pés recentemente desatados,
a língua solta?
Deus escondido, onde moras?
devemos procurar-te entre os que fizeram o êxodo
e começaram a amar,
os que morrendo a si já ressuscitam
os que rompem as muralhas da pele e pedem água?
devemos procurar-te naqueles que sobem à montanha
para molhar as mãos de luz e transfigurar-se?
(na solidão dos montes apalparei a tua face?
na limpidez dos rios e nas palavras
com que que fizeste o mundo verei a tua mão correndo?)
onde devemos esperar-te, Deus da surpresa
e como nós trânsfuga?
Deus dos que não têm voz nem barcos
para na albufeira olhar a alma
a crescer como a sombra dos pinheiros
anoitece a alma e o rio,
Deus gratuito, onde estás?
devemos procurar-te na poesia e no canto,
no amor e na beleza,
na barraca e no lixo?
onde apareces, Deus amigo dos pobres,
onde te acharemos, Deus libertador?

Ateísmo

o mundo actual vive sem deuses
é ateu
o seu sonho é divino
mas não é com um deus que sonha
os deuses retiraram-se como as aves
por causa do ruído
que avassala o mundo
é no mistério que o respeito se funda
e o sagrado dispõe para o tempo a vir
só um deus nos pode salvar
no período decisivo e indeciso
do interregno da vociferação
o sagrado é fidelidade à origem
a memória é fidelidade ao sítio da alegria
que palavra fará surgir
o invisível à manifestação?

uma outra história… da poesia visual.

carcavelos


Os trabalhadores do Mercado de Carcavelos esperam indefinidamente por uma promessa de realização de obras por parte da junta de freguesia que junte a feira (separada há mais de 5 anos) de Carcavelos ao respectivo mercado. Há cerca de 2 anos a presidente da junta finalmente disse aos trabalhadores do mercado que já existiam verbas para a realização das obras mas até agora nada foi feito. Centros comerciais proliferam na periferia e os mercados tradicionais são cada vez menos assim como cada vez mais se agudiza a condição financeira de quem neles trabalha.
Assina esta petição e divulga.

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/5466

abracadabra – ou da imagem poética

os sigilos mágicos são poemas experimentais?