por uma semana pagã

Dias da semana
reivindiquemos o calendário primitivo / pagão

Os dias da semana, na língua portuguesa, obedecem à liturgia católica por iniciativa de Martinho de Dume (Martinho de Braga).  Este bispo daquela diocese minhota (ainda por cima dizem ser santo quer para católicor quer para ortodoxos) foi o autor desta reforma que implicou alterações na denominação dos dias – apenas imposto em Portugal.  A vizinha Espanha e a maioria dos países europeus não adoptaram tal reforma e consequente alteração dos nomes dos dias da semana. O nosso calendário é baseado em nomes litúrgicos… Recusemo-lo!… E, Mais vale Tarde que nunca!… Se necessário for, exijamos um referendo!… mais um!
e

Voltemos às origens: – Dia do Sol, Dia da Lua, Dia de Marte, Dia de Mercúrio, Dia de Júpiter, Dia de Vénus, Dia de Saturno (assim era o nosso calendário até ao século VI – imagem / quadro pirateada de http://pt.wiktionary.org).

um livro de andy warhol

Do seu livro para crianças

 

 

 

 

 

 

 

 

está um óptimo dia

estou a gostar do dia d’hoje
dia do Sol (por acaso com muitas nuvens e chuviscos)
amanhã é dia da Lua
mas no dia seguinte – dia de Marte
é feriado (nem sei porquê – mas todos os feriados caem bem)
o meu almoço vai ser “charros alimados”
Não sabem o que é?… também não vos digo – passem um dia pelo Algarve, entrem num restaurante
e peçam
e comam
e vão gostar

charros alimados para a mesa 8 (a do infinito)

o padre

segundo o correio da manhã:…

Incrédulos e chocados. É assim que os habitantes de Carvalho, uma freguesia de Celorico de Basto, reagem à notícia de que o padre Rui fugiu com Fátima. O padre tem 26 anos e apenas 16 meses de sacerdócio. A jovem, que frequentemente visitava a casa paroquial, fez 18 anos um dia antes da fuga. Desapareceram no final da semana passada, depois de o padre Rui ter pedido ‘permissão’ à família para se casarem. Negaram-na, e eles desapareceram.
(Ler mais…)

entrevista a M. Almeida e Sousa

NOS 30 ANOS DE

Entrevista conduzida por José Bivar

- esta entrevista destinava-se ao suplemento “S” de “Postal do Algarve” (não foi publicada)

Poeta experimental, actor e Performer, Manuel Almeida e Sousa é um dos últimos e dignos representantes de uma geração de artistas de referência ainda mal avaliada e pouco compreendida, sem a qual todo o panorama cultural emergente se torna fútil e incompreensível. Nesta conversa procuramos esse elo entre gerações, onde a Mandrágora se apresenta como uma proposta com 30 anos de actividade ininterrupta na área da cultura.

1- Quando nasceu a Mandrágora e porquê?

- O porquê em primeiro lugar… “A razão é outra e é louca” diria o poeta António Maria Lisboa. E a razão, pode dizer-se, é o símbolo e o signo. (refiro-me à razão do nome) porque a Mandrágora – a planta Mandrágora Officinarum, que outros conhecem pelos nomes vulgares de Berenjenilha ou Uva de Mouro (Atropa Mandrágora), cresce na península ibérica, em bosques sombrios, junto às correntes de água e em sítios misteriosos onde nunca penetra o Sol. A sua raiz é grossa, longa e esbranquiçada, por vezes dividida em duas partes. Uma porção de folhas ovais e onduladas rodeia a raiz e estende-se em círculo pelo solo. O seu fruto, semelhante a uma pequena maçã, produz um odor desagradável assim como toda a planta. Os camponeses conhecem, ainda que por tradição, o terror que só o nome desta planta despertava nos seus antepassados. Para eles era um vegetal que tinha algo de Humano e as obras de magia indicavam-na como algo excepcional a que é forçoso dispensar culto. Teofrasto disse dela: “árvore com cara de homem”. A Mandrágora entrava na composição dos “Filtros”, dos “Malefícios” e em diferentes receitas de feiticeiros. Quando a arrancavam da terra, diziam que o homenzinho encerrado nela lançava gritos horríveis e gemidos agudos. Era preciso colhê-la, debaixo de uma forca, após ritos estranhos. Os concílios da ICAR, ocuparam-se sempre deste assunto… e o nome da planta figura na maior parte dos processos da Inquisição… A razão, outra, prende-se com uma palavra que nos é cara: criatividade.
Voltando a António Maria Lisboa – “a criatividade e a espontaneidade irrompem espontaneamente ou não irrompem”… E nós estávamos nesse processo.
Havia que romper com o peso de uma cultura que se estava a impor, a que espelhava um novo autoritarismo crescente… os criadores / operadores estéticos (que se juntavam à mesa de café) queriam mais… A “treta” da “arte ao serviço do povo”, era algo que não fazia sentido – éramos a geração de Maio de 68, do “é proibido proibir”, do “exigimos o impossível”… O somatório de tudo isto levou-nos à construção de um caminho e esse caminho à porta do notário onde subscrevemos uma escritura. Tudo teve lugar no ano de 1979 (fim de década – não por acaso, nada é por acaso. Ou talvez sim…), e também mês de Novembro (o das bruxas, dizem), o da revolta. Não Outubro (o da revolução…).
De saída (do cartório) a planta foi cuidadosamente colocada no vaso e…
floresceu. Daí se infere que Mandrágora está impregnada de rituais, de ligações… e logo, de um espírito colectivo libertador – criamos em liberdade – sempre e por princípio… cultivamos a velha tradição das vanguardas do século que ora terminou mas, sempre, libertos de cânones.

auto-retrato(s)

2- No pós 25 de Abril uma aposta desse tipo era rara, entroncava com a linha anarca-surrealista do jornal “e etc”? Tiveste ligado a esse grupo?

- Fujo (fugimos) sempre a rótulos. Somos, sobretudo, um colectivo de operadores estéticos. Não mais. Quero dizer com isto que “ao meter as mãos na massa”, nos despimos do quotidiano e “iniciamos o rito de criação”…
O surrealismo é hoje (para nós) mais uma referência como o é o dadaísmo ou o experimentalismo dos anos 60. O anarquismo, por outro lado, é um lago onde naveguei ou me banhei… hoje (e, aqui neste parágrafo, estou a falar em termos pessoais) estou muito mais próximo de um niilismo que de uma cultura libertária/anarquista. Vejo-me, portanto, mais próximo dos dadaístas que dos surrealistas. Estou mais com Artaud, Apollinaire, Pierre-Albert Birot, Tzara, Picabia do que com um Breton (ainda que o considere. Muito)… mas isso sou eu. Não confundir o EU com um colectivo como Mandrágora onde há pessoas. E, onde há pessoas há experiências de vida… a Mandrágora é pessoas, não a pessoa que sou eu. A aposta em Mandrágora, enquanto projecto, obedeceu (acho) aos tempos certos. Estamos em 79, estamos (nessa altura) ainda a “domar sonhos”. Estamos a viver no ventre da grande mãe “utopia”. Essa deusa criativa que nos cedeu o seu caldeirão para que, nele, preparássemos o nosso primeiro feitiço:  O espectáculo “AUGA” donde transbordava a poética do surrealista Pedro Oom. “Auga” teve um apoio fabuloso por parte do pintor Cruzeiro Seixas que nos facilitou a estreia na Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol (Estoril). O jornal/revista “& etc” surge nos finais da ditadura e, se não estou em erro, no pós 25 de Abril só saem três números… a “& etc” revista dá lugar à “& etc” editora. Conheci pessoas que colaboraram na revista, de entre elas o Ludgero (Lud). Não me lembro se o Nicolau Saião chegou a colaborar, penso que não – que colaborou no primeiro “& etc” – ainda suplemento do “Jornal do Fundão”.
Mas não tenho ideia de que fosse um grupo formal, penso que a “& etc” era mais um projecto pessoal… Mas fui seu leitor, sim. Tenho quase todos os números – creio que me faltam dois. Lembro-me que não os comprei porque tinham subido de preço… uma exorbitância, “quinze paus”! Não esquecer que na altura uma bica custava vinte e cinco tostões… e eu andava sempre teso. Ainda ando…

3- A tua profissão de professor ajudou a manter o projecto, nomeadamente, na repescagem de colaboradores e propostas poéticas?

- A minha profissão… Essa questão é interessante. Mais interessante se respondida não por mim, mas pelo actual presidente da direcção da Mandrágora. Vou fugir, portanto, a uma resposta directa e dar espaço às palavras do Bruno Vilão:
“Com 16 anos, entrei na Mandrágora sem conhecer os seus pressupostos, as suas bases artísticas, o seu particular modo de pesquisa de arte. O meu quadro de referências literário era essencialmente pautado pelo movimento do Romantismo. E hoje, após uma intensa e profunda incursão pelo Surrealismo, pela constante pesquisa poética proporcionada pela Mandrágora, posso afirmar que me transformei num romanticida em série. Foi como espreitar o mundo através de uma nova janela ou através dos óculos cinéticos do Julio Le Parc, e não há ponto de retorno.”
“ Era um adolescente carregado de classicismo literário quando cheguei à Mandrágora. O primeiro encontro com o Surrealismo previa-se, portanto, exigente. E esse confronto aconteceu quando o Almeida e Sousa inundou os meus olhos com a poesia do António Maria Lisboa. Não sei se estava preparado para ler um poeta que tinha um desejo irreflectido de possuir alguém num trampolim. A verdade é que aquela escrita possuiu-me efectivamente e a minha sede de surrealismo nunca mais parou de se elevar num trampolim. Ainda hoje saltita dentro de mim. Esta densidade poética sugou-me e não mais de lá saí. Foi como “uma bala direita no cérebro sem apoio em nenhum ponto do espaço”, legendaria o Maria Lisboa.”

“Estava a começar uma nova etapa na Mandrágora quando integrei o grupo, mas o que ainda não sabia é que também eu estava prestes a iniciar uma nova etapa na minha vida, pois as transformações internas enquanto entendimento de arte, de sociedade, de cultura, de conceitos e de premissas base sucederam-se a um ritmo trepidante. Eu era apenas um miúdo que queria ser actor e hoje sou tudo menos actor. Sou mais poeta, mais performer do que actor. Inclusivamente, tive a oportunidade de poder desenvolver a minha área académica de comunicação através da Revista Bicicleta, esse veículo velocipédico cultural q.b. da Mandrágora.”
“Partindo do pressuposto de que a arte está dentro de nós, dentro de cada um, a pesquisa de arte que se faz na Mandrágora acaba por ser uma pesquisa interior, de auto-conhecimento, que depois se expressa em forma de arte. No processo de ensaios para um espectáculo não existe nenhum “outrar”. Não há personagens pré-definidas para interpretar. Acho que são mais as personagens que nos interpretam. Há fragmentos de nós que se descobrem e se desvendam em cada personagem. Não lhes damos corpo. As personagens encontradas é que nos dão forma, que nos revelam. Penso que o tom que atravessa 30 anos de Mandrágora é influenciado por um singular processo de criação. É um espaço de pesquisa onde realmente se exalta a ideia do Breton, quando formula que “não será o medo da loucura que nos forçará a arrear a bandeira da imaginação”.
“A Mandrágora consegue proporcionar imagens-miragens onde a água assume um novo estado – não é nevoeiro nem bolhas de sabão. “Mandrágora” não se enceta, não se consome, não se utiliza, e portanto não se reutiliza, nem tão pouco se recicla. É um mirabilis liber que nem todos conseguem folhear.”

4- Nasceram alguns projectos ou grupos saídos da Mandrágora?

- Ao longo destes 30 anos houve apenas uma situação de quebra – saída em grupo… Porém esse grupo desenvolveu apenas dois ou três projectos e dissolveu-se. Fora essa situação, as saídas foram quase sempre motivadas por questões que se prendem com a vida particular de cada um… não com o objectivo de abraçar um outro projecto. Mas estamos conscientes que a nossa acção influenciou outros grupos tal como nós fomos “vítimas” de outras “viroses”… O que é natural, 30 anos é uma vida… não?

M. Almeida e Sousa numa cena de “A Mandrágora” (Cascais) – um espectáculo de Mandrágora

5- Qual o balanço que fazes destes 30 anos?

- Resumiria da seguinte forma mais ou menos poética:
30 anos (em 20 de novembro de 2009)/ uma vida associativa intensa/uma procura de experiências estéticas constante/mais que o desejo do produto final/ o aperfeiçoamento/ e o que nos interessou sempre/ a experimentação/a construção e destruição em regime de“atelier”/ e o ritmo que se perde na densidade do significado dos signos/ este percurso por entre actos criativos com paragens em estilos vários/ artes plásticas/ mail art/ performance/ teatro/ multi media/ edições/ atravessou os nossos objectivos poéticos/ porque criativos/ porque irrompem espontaneamente no imaginário dos actuantes do colectivo/ esteve sempre presente a ideia de um espaço que pode muito bem ser um fosso iniciático/ uma caverna/ uma torre/ e a iniciação tem – sempre – lugar aí/ nesse local imaginado/ cada dia um ritual/ e todos os dias o rito deslocar-se-á a um outro ponto de acção/ a experiência – as experiências são objecto de reflexão para outras demandas/ e as ferramentas em utilização não são (de todo) sofisticadas/ antes aquelas que estão ao alcance das nossas mãos/ apenas só nos falta um espaço/ o concreto desde sempre/ e já se passaram 30 anos desde o dia em que mandrágora lançou as suas sementes.

6- Enquanto autor de textos dramáticos o teu trabalho ultrapassou o âmbito da mandrágora?

- Não. Nem estou interessado. Eu estou e estarei sempre à margem do “mercado”. É uma questão que tem a ver comigo… ideológica, se o entenderes.
Eu trabalho para o projecto e com o projecto (com ou sem dinheiro). Sou um fazedor de coisas, não um vendedor de coisas. Escrevo cartas/ mensagens aos que conheço, aos que me estão próximos. Logo escrevo a pensar nas pessoas que estão comigo – para elas. Só para elas. Não escrevo (como não escreveria cartas) a pessoas que não conheço de lado nenhum…
Se estivesse interessado em espaços ou auditórios amplos não me seria difícil – descendo de uma família de editores livreiros… tive sempre à minha disposição os meios e sempre os recusei. Melhor, não os aproveitei por opção.

7- Como te vês no panorama artístico – poeta visual e não só, dramaturgo, artista plástico, actor? Performer, em suma?

- O Bruno Vilão disse sobre a sua estada na mandrágora o seguinte: “… Eu era apenas um miúdo que queria ser actor e hoje sou tudo menos actor …” Eu diria algo parecido. Não sei bem o quê, mas diria. Como afirmei na tua questão anterior, escrevo apenas mensagens – envio-as, troco-as… vivo o acto criativo em confraternização, em ritual – é isso que me interessa. Tudo o resto me passa ao lado.
E a performance é a razão… A dimensão mágica e poética da performance manifesta-se através de desdobramentos e (re) interacções… E, por outro lado, a repetição e o seu aspecto intimista favorecem aquela espécie de imersão no nirvana. Um nirvana muito especial, uma vez que na performance o propósito não é o isolamento, tão pouco uma interacção cósmica, com seus efeitos paralisantes ou estilizantes. Em jogo estão sempre 3 vectores na minha acção; por exemplo o triângulo: Ritual – Desconstrução – Construção ou também um derivado, este na forma do quadrado: Memórias – Construção – Repetição – Desconstrução. Isto poderá parecer confuso ao leitor comum… Mas não é – de todo. Conheço as linguagens em jogo… Não domino – apenas – a música como gostaria. E isso coloca-me em sintonia com aquilo que me interessa – experimentar/desconstruir e… construir.
É evidente que as acções que experimento poderão ter outras leituras: há as telas, as instalações, os poemas visuais, o teatro, os textos mais ou menos dramáticos, o livro de artista, a arte postal, o circo & etc. … mas todos – se verificares – fazem parte de um mesmo olhar de uma mesma pesquisa e experimentação. O panorama artístico pouco me interessa – estou mais interessado (e cada vez mais) em experimentar, gozar o prazer de fazer coisas, mesmo que o resultado final seja uma enorme lixeira.

imagem de “Eu Antonin Artaud” – encenação de M. Almeida e Sousa. Espectáculo de Mandrágora que esteve presente na Bélgica quando da Europália

8- A arte deve ser total? Qual a relação que estabeleces entre a Vida e Arte?

- A arte é algo vago. Sobre isso muito foi dito ao longo dos séculos… passo a citar aquilo que mais de acordo está com a minha prática… – Raoul Vaneigen no seu livro “A Arte de Viver Para a Geração Nova” disse: “Desde há século e meio, a parte mais lúcida da arte e da vida é fruto de investigações livres no campo dos valores abolidos.  A razão passional de Sade, o sarcasmo de Kierkegard, a ironia vacilante de Nietzsche, a violência de Maldoror, a frieza mallarmeana, o “Umor” de Jarry, o negativismo de Dada, essas são as forças que se manifestaram sem limites para introduzir na consciência dos homens um pouco de bolor dos valores em putrefacção. E com ele, a esperança de uma reviravolta de perspectiva.” … A propósito do movimento DáDá, Francis Picabia disse: – “Vocês não percebem aquilo que fazemos. Pois olhem caros amigos que nós ainda menos” … E, finalmente, Pierre-Albert Birot disse na primeira década do século XX: “… No tempo em que a ciência põe o mundo inteiro na mão de cada homem, os espíritos não podem fazer menos do que alargar a sua amplitude e a sua ambição; hoje, mais do que nunca, o homem e, sobretudo, o artista deve dizer: nihil humanum… O mundo inteiro é o seu atelier, o mundo inteiro é o seu gabinete de trabalho, o mundo inteiro é o seu modelo e ele só pode ter aspirações ao que se poderia chamar o mundialismo ou o universalismo….”

9- Que pensas dos percursos artísticos actuais e do nascimento de uma série de vedetas emergentes, sentes-te de alguma forma ultrapassado, um veterano de outras guerras ? Acreditas na fusão completa da arte com a vida na linha do FLUXOS, dos accionistas de Viena, Otto Muehl (residente incógnito em Moncarapacho), Brus, Joseph Boyeus…, anti-capitalistas, anarco-situacionistas.

- A palavra “vedeta” não me incomoda. Acho que todos temos direito ao nosso momento de glória! É salutar ser-se reconhecido. Dá-nos mais força, mais razão para prosseguir na nossa “luta”, no nosso percurso… Ser-se vedeta não implica ser-se cabotino. Os cabotinos, sim, incomodam. Incomodam-me porque me irritam. Fico sempre muito feliz, dá-me imenso prazer e gozo quando um amigo ou um aluno meu alcança o êxito. Esse espírito nacional (super instituído) chamado inveja não é, de todo, navio onde embarque ou possa vir a embarcar. O êxito é fundamental no processo. E é fundamental esse espírito desinteressado e “aristocrático” que implica o estarmos nestas coisas da “Kultura”.
Se sou veterano e de outras guerras?… talvez sim. Mas isso jamais implicará que seja o que hoje é entendido por “politicamente correcto” e tão cultivado por essa nova esquerda emergente. Estou literalmente nas tintas para esse estar. Outros valores mais altos se erguem no meu horizonte. Sobre a segunda parte da tua questão… Fluxos, Boyeus e Situacionistas interessaram-me. Sim. Segui atentamente os percursos de acção e de pensamento. São outras referências e não mais que referências. Que fariam esses históricos hoje? Que diriam? Se o mesmo… então já não interessa. Já não me interessa.

10- As artes de palco e performativas parecem estar na moda, no entanto, a esses projectos, parece faltar uma certa maturidade, força e a autenticidade dessa Velha Guarda; roçam o entretenimento e/ou a vontade de agradar a um público tecnicista, pseudo-vanguardista. Como te situas perante essas propostas? Cesariny, Ernesto de Sousa, Luís Pacheco, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Fernando Aguiar, Alberto Pimenta, Alfred Jarry, Antonin Artaud, Peret, Kerouac, Bourrougs, Bukowski, Arlo Ibars são nomes que parecem não dizer nada às novas gerações, fanatizados na Pop cultura dita urbana, de uma Pina Baush, Laurie Anderson, etc. A Beat Generation desaparecida há mais de 50 anos sem deixar rastro visível neste Portugal, sem massa crítica que o defenda de consumismos, das neo-liberais indústrias da cultura e seus cabotinos comissários, surfistas de banheira, chazinhos de Letras e tertúlias de “bom porte e postura” para a terceira idade com cuidados paliativos para evitar os choques emocionais. Tudo muito provinciano como é costume. Sentes-te pós moderno ou um resistente?

- Muitos nomes… essa questão pressupõe a resposta implícita… ainda assim: Cesariny, um amigo e uma referência. Ernesto de Sousa, uma personagem muito interessante. Luís Pacheco, um conhecido a quem comprei livros e com quem bebi uns copos. Mário Henrique Leiria, uma figura que conheci no fim do seu percurso e que tive pena de não poder tido a oportunidade de aprofundar o diálogo. António Maria Lisboa, o poeta “inteiro” que jamais poderia ter tido a oportunidade de conhecer. Fernando Aguiar, um amigo e companheiro com um percurso diferente mas que gosto muito. Alberto Pimenta, uma referência, outra… colaborou nas nossas “bicicletas” e foi bom. Alfred Jarry, o poeta que abriu muitas portas e isso foi óptimo. Antonin Artaud, quem sou eu?… De onde venho?… sou Antonin Artaud!… A referência máxima. Benjamim Peret, o poeta dos tomates enlatados e muito mais – pela sua coerência, pela sua força… Os americanos… e a pop, e os hippies, e… a poética de rua. Falta aí o Jarry Rubin que disse: “O cenário és tu/ o actor és tu/ tudo é real/ o público não existe” … Quanto aos chás… prefiro o tinto.

11 – Qual é a tua relação com o Algarve, além das tua raiz familiar?

- Foi no Algarve que perdi a virgindade! À sombra de uma alfarrobeira… Tenho uma casa na Luz de Tavira onde enterro dinheiro… gosto mesmo de Tavira e de Silves. E só não gosto muito do mar porque é pouco revolto. Gosto mais da minha praia. A do Guincho.

12 – Qual o balanço que fazes das possibilidades de intervenção que tens tido e/ ou não na região? ArteSeries incluído.

- hum…. Sobre o assunto escrevi o seguinte: “sobre o evento ArteSeries tenho a dizer que cumpriu, em faro, a proposta que – em nome da mandrágora – fiz a José Bivar; um projecto que escorre alegremente à margem do instituído. A proposta era arte e a arte foi cumprida sem medalhas nem comendas. A arte foi, como deve ser, um grito independente. E as acções sucederam-se. Envolveram-se. Aventuraram-se por territórios de espanto e muito improviso. Estar em faro na qualidade de fazedor de coisas para uns, ou de alucinado para outros. Deu gozo. Muito. Sobretudo porque partilhei o espaço de acção (palco) com pessoas de quem gosto e muito considero, todos eles. ArteSerieS – assim baptizada pelo Bivar – Cumpriu. E o próximo comboio é para apanhar no Cais do Sodré. Au revoir algarve!… que vou até Tavira.”

13 – Qual a diferença com o ambiente de Huelva onde foste o ano passado premiado? Os blogs vieram ao encontro da tua forma de entender a arte (multi-media)?…

- Vou, tenho ido aos encontros “Edita”, de Huelva, desde a sua segunda edição. Só entendi o prémio como um “recuerdo”. Não mais que isso. O símbolo do galardoado, não faz o meu género… O que senti este ano é que o “Edita” acabou. Aquela “Palavra Ibérica” é outro comboio… não sei.
Sobre os blogues… nada têm a ver com experiências multi-media. O blogue é comunicação. Só isso.

14 – Ainda acreditas numa ARTE que derrube a humilhação com que todos os dias saímos à rua?

- A poética está na RUA! A verdade está na RUA! E os poetas derrubam (ou devem derrubar) os muros…

 

que projecto!…

Simplesmente extraordinário. Criação de “New Zealand Book Council”, Animação de Andersen M. Studio.

All — garve

A provocação é sempre – hoje. Algarve que os senhores do turismo lhe acrescentaram um maldito L (ao al de alandaluz) não (o tudo dos bifes…)

O texto que se segue é velho – foi publicado no nosso blogue “confraria da alfarroba”, mas… e tendo em conta desejos de leitores do “reino dos algarves” aí vai mais lenha para a fogueira….

Tavira - grafismo de M Almeida e Sousa

Tavira - grafismo de m. almeida e sousa

“Allgarve” – dizem eles.
Dizem “all” porque tudo tem (?).
Terá?
Não valerá a pena prendermo-nos com aquele “tudo” aquele “all”.
Não vale a pena voltar à aberração desses “2 L” que dizem, eles, é apenas um truque publicitário – não mais…
A nós que praticamente crescemos no sotavento algarvio choca-nos.
Sim.
Para nós o “all” é aberrante. É subserviente. Fede a pretenciosismo parolo. É, enfim, coisa nenhuma.
Mas eles, os do turismo, estão delirantes – o Algarve tem tudo e os turistas vêm ao engano porque o tal “all”, afinal, não passa de um enorme “rien” – para dar, agora, um tom francês: “riengarve” é uma contra-proposta.
Et pourquoi?
Básico. O Algarve não tem, mesmo, as condições mínimas para um turista que aí se desloque sem viatura própria. Salvo se aceitar manter-se num qualquer “aldeamento turístico”.
O Algarve litoral está completamente degradado e descaracterizado. Salva-se uma cidade; Tavira.
Mas apenas a cidade. Porque o concelho caminha a passos largos para esse “Allgarve” que eles gostam tanto.
E essa Tavira até quando? Até que surja um “homem de negócios” com capacidade para comprar os gestores camarários?…
O turismo cultural não tem espaço neste “Allgarve”. Deixou de ter há muito. Desde os anos 70 quando o betão feriu de morte as falésias de Albufeira. Quando a arquitectura popular foi substituída por edifício que agridem a paisagem (qualquer paisagem).
O “pato bravo” assentou arraiais há muito e, com ele, as aberrações arquitectónicas. Exemplo recente será a cidade de Olhão – a arquitectura “cubista” e as casas de azulejos da avenida central estão hoje ou em ruínas ou completamente degradadas.
O património cultural algarvio resume-se, pois, a vestígios.
Apenas isso, vestígios.
No Algarve os árabes destruíram parcialmente o que deixado foi pelos romanos. Os vândalos (cristãos) destruíram quase tudo. O “pato bravo”, ao serviço do capital, não deixou pedra sobre pedra.
Voltemos ao “all”. O do “Allgarve” que tem tudo…
E transportes?
Não. Não tem transportes.
O caminho de ferro tem sofrido uma degradação total e:…
- Mantém uma ridícula via única.
- Mantém comboios a diesel com mais de 30 anos.
- As estações estão fechadas e vandalizadas.
- Os horários não são respeitados.
- As paragens em estações de segunda via, são por tempo indeterminado (á espera do comboio que virá(?) no sentido oposto).
- Um número reduzidíssimo de comboios diários em ambos os sentidos…
Vejamos:
De Faro para Lagos há 9 comboios diários, sendo o último com partida às 20:11. No sentido oposto também 9, sendo o último às 19:20.
De Faro a Vila Real de Sto. António 11 comboios, sendo a partida do último às 23:25 e, no sentido inverso, 10 comboios. A última composição parte de Vila Real de Sto. António às 20:40.
É com este esplêndido serviço que a CP brinda o turismo e a população do distrito de Faro.
A CP (ou Refer) conseguiu transformar os seus serviços no Algarve a um nível só comparável ao pior do chamado 3º mundo…
Os caminhos de ferro no Algarve (e não só) estão 300% piores que na década de 60.
Como alternativa temos (sem concorrência) a EVA transportes – autocarros. E este serviço rodoviário pouco acrescenta ao serviço da Refer… Se fizermos uma análise aos horários da EVA parecem colar-se aos horários ferroviários – os autocarros não são alternativa a coisa nenhuma.

Um casal francês com uma criança de 2 anos – hospedado num hotel de Tavira – comentava este verão, num restaurante, a sua aventurosa ida à praia da Fuzeta de comboio…
No regresso planeavam apanhar o comboio das 19:50. Não conseguiram. O combóio “que se segue” é ás 21:50… Com a criança, que fazer?… Alternativa? Taxi. Mas… não há uma praça de taxis na Fuzeta. Não há Taxis… solução; chamar um Taxi a Olhão.
A praia saiu cara… Juram não mais voltar a este paraíso que tudo tem. A este “Allgarve”.

E já agora, serviços de saúde?
- Quase nada… os hospitais fecharam quase todos. Restam os de Faro e Portimão – a rebentar pelas costuras. Há ainda os chamados “centros de saúde” com as condicionantes a que estamos habituados….
- Mas afinal para quê hospitais? Os turistas vêm para a praia ou para o hospital?
E a população é para trabalhar de maio a setembro!…
A população é mão de obra barata ao serviço dos senhores investidores… acaso não ouviram o discurso do senhor ministro na China? Aquele extraordinário discurso para incentivar o investimento chinês neste país que se orgulha de ter os salários mais baixos da Comunidade Europeia?
Estás parvo, ou quê?

Nota – quase de rodapé: As laranjas do Algarve caem de podres no chão. Não são apanhadas. não compensa (?)…
Num super mercado de Tavira (mesmo ao lado de um pomar de laranjeiras), vendem-se laranjas provenientes da África do Sul. O Algarve tem mesmo tudo, até laranjas de Durban para delicia do turista britânico.

Os horários dos comboios registados no texto correspondem ao ano de 2007 – mas será irrelevante, uma vez que não diferem muito dos horários de hoje.

Mês de Mandrágora

No 30º aniversário de Mandrágora 20 de Novembro de 2009

segundo a direcção de “Mandrágora”: - nestes 30 anos de Mandrágora… Seria nosso objectivo editar um número de “Bicicleta” em suporte de papel.
Esse número contemplaria espaços abertos a artistas nacionais e estrangeiros que connosco têm colaborado.
A nossa proposta implicaria ainda a edição de uma obra dramática de Victor Belém – uma homenagem a este artista plástico nascido em Cascais nos finais dos anos 30 e que tem colaborado com o nosso projecto associativo desde a primeira hora.
O nosso pedido de apoio e colaboração à Câmara Municipal de Cascais não foi satisfeito. Melhor, não obtivemos qualquer resposta da autarquia.
Tal situação impossibilitou a concretização deste projecto editorial.
Mandrágora completa 30 anos de actividade cultural neste mês de Novembro. Completa mais um ciclo…
Jamais, as falhas das instituições impedirão que este colectivo prossiga o seu caminho.
O desenvolvimento do seu projecto estético.

entrevistas com Manuel Almeida e Sousa e Bruno Vilão (número especial de “Bicicleta” PDF) baixar aqui


divulgamos aqui a entrevista feita por Mandrágora ao director da revista BICICLETA e seu presidente  – Bruno Vilão


Mandrágora –  Começa tu.
BV -  Porquê?
M -  Sei lá! Tens explicação para tudo ou é só porque és mais novo?
BV – Não facilitas em nada, tu…!
M – A minha função, a função de Mandrágora, não é a de facilitar, é a de impulsionar e de projectar cada vez mais fundo, alargando a base de sustentação de cada um. E isso só se consegue com exigência ao nível dos materiais utilizados e da capacidade técnica dos nossos associados.
BV – Parece que fui admitido à experiência numa empresa de construção…!
M – De certa maneira…
BV -  Está bem, ganhaste. Então, lá vai: quando cheguei à Mandrágora, confesso, era um adolescente carregado de classicismo literário, pelo que o primeiro encontro com o Surrealismo se previa exigente. E esse confronto aconteceu quando o Almeida e Sousa…
Eu -  Oh! Sim, o divino mestre…! Sem malícia…
BV -  … inundou os meus olhos com a poesia do António Maria Lisboa.
M -  É. Ele e o António Maria Lisboa estão prometidos um ao outro desde a eternidade.
BV -  Não sei se estava preparado para ler um poeta que tinha um desejo irreflectido de possuir alguém num trampolim. A verdade, porém, é que foi ela, aquela escrita me possuiu e a minha sede de surrealismo nunca mais parou de se elevar… num trampolim.
M -  E foi aí que te transmutaste em acólito da Sagrada Igreja Mandragoriana, que prega o aumento da fé pelo exercício do trampolinismo. Foi aí que te tornaste num verdadeiro trampolineiro.
BV -  Concedes-me a honra de tal designação?
M -  Já tens tempo de dedicação suficiente. Além disso, não queremos problemas com os sindicatos. Estragava-nos a imagem kaotico-iniciática e lá se ia a freguesia. Mas continua, continua.
BV-  Ainda hoje anda por dentro de mim, a saltitar. Esta densidade poética sugou-me e não mais de lá saí. Foi como “uma bala direita no cérebro sem apoio em nenhum ponto do espaço”, como legendaria o Maria Lisboa.
M -  E com que idade é que foste atingido por esta tropa? Ainda não disseste.
BV -  Entrei, com 16 anos, sem conhecer os pressupostos da Mandrágora, as suas bases artísticas, o seu particular modo de pesquisa de arte. O meu quadro de referências literárias era essencialmente pautado pelo movimento do Romantismo. E hoje, após uma intensa e profunda incursão pelo Surrealismo que a constante pesquisa poética que essa entrada me proporcionou, posso afirmar que me transformei num romanticida em série. Foi como espreitar o mundo através de uma nova janela ou através dos óculos cinéticos do Julio Le Parc. Não há ponto de retorno.
M -  Sabes… quando saltares mais um bocado hás-de perceber que também não há ponto de começo. Mas continua…
BV -  A Mandrágora iniciava uma nova etapa quando integrei o grupo, mas o que ainda não sabia é que também eu estava prestes a iniciar uma nova etapa na minha vida, pois as transformações internas enquanto entendimento de arte, de sociedade, de cultura, de conceitos e de premissas base sucederam-se a um ritmo trepidante. Eu era apenas um miúdo que queria ser actor e hoje sou tudo menos actor. Sou mais poeta, mais performer do que actor. Inclusivamente, tive a oportunidade de poder desenvolver a minha área académica de comunicação através da revista Bicicleta, esse veículo velocipédico cultural q.b. da Mandrágora.
M -  Como te disse, não há ponto de começo, por isso a Mandrágora não iniciava nada, praticava, como continua a praticar, ilusionismo para as mininas e os mininos, as portuguesas e os portugueses. Mandrágora é pura ilusão porque é pura poesia. Aprende, que eu não estarei sempre por aqui. Espera-me uma longa viagem de zeppelin.
BV -  A Mandrágora respira pelo coração do Almeida e Sousa. Ele tem a capacidade, mais do que de desenvolver actores, actuantes, ou o que se lhe queira chamar, de desenvolver e revelar pessoas, nesta câmara escura que é a Mandrágora, onde amplia os negativo-actores, dando-lhes tons. Penso que ele não tem noção da forma como consegue tocar as pessoas, envolvê-las, fazê-las evoluir, nem do nível de respeito de que goza. É uma referência marcante para todos os que o rodeiam.
M -  Pois… Dá-vos trela, é o que é…
BV -  A Mandrágora, ao longo de quase 30 anos, tem sido uma autêntica escola. Mais do que escola de actores, uma escola de pessoas. Foram dezenas de adolescentes que integraram projectos da Mandrágora e ficaram com uma experiência artística, de processo de ensaio, de construção de imagens e de personagens muito distinta do que é comum em Portugal. Partindo do pressuposto de que a arte está dentro de nós, dentro de cada um, a pesquisa de arte que se faz na Mandrágora toma a forma de uma pesquisa interior, de um caminho de auto-conhecimento, que depois se expressa em algo de arte. No processo de ensaios para um espectáculo não existe nenhum “outrar”, não há personagens pré-definidas para interpretar. Acho que são mais as personagens que nos interpretam. Há fragmentos de nós que se descobrem e se desvendam em casa personagem. Não lhes damos corpo. As personagens encontradas é que nos dão forma, que nos revelam. Penso que o tom que atravessa 30 anos de Mandrágora é influenciado por um singular processo de criação. É um espaço de pesquisa onde realmente se exalta a ideia de Breton, quando formula que “não será o medo da loucura que nos forçará a arrear a bandeira da imaginação”.
A Mandrágora consegue proporcionar imagens-miragens onde a água assume um novo estado – não é nevoeiro nem bolhas de sabão. “Mandrágora” não se enceta, não se consome, não se utiliza, e portanto não se reutiliza, nem tão pouco se recicla. É um mirabilis liber que nem todos conseguem folhear.
M -  Esta última tirada atingiu um nível iniciático que te permitirá comprar todos os nossos produtos com agravamento fiscal e pagar os nossos repastos comemorativos anuais com IMA (Imposto Mandragoriano Acrescentado), de modo a obter receitas que nos permitirão continuar financiar os nossos mais recônditos prazeres. Conseguiste a prova definitiva de que mereces entrar no Segundo Grau de Compreensão, o da Deplorável Ordem Financeira que é, neste país predestinado pelo Grande Mestre Dobras, sinónimo de artista emérito e Mandragoriano Exemplar.
BV -  Queria ainda acrescentar que…
M –  Não acrescentas mais nada, que não há espaço na revista e eu tenho que ir jantar. Pensas o quê?! Que estás na tropa, não?!
BV -  Mas tu não ias falar também…?!
M -  Falar… Cultura…! O verdadeiro Mestre, dizia Lao-Tse, junta tesouros para o estômago, não para o espírito. Um verdadeiro Mandragoriano! Do melhor!
Ora vai lá à tua vida…! Vai!

epipiderme

Encontros à volta da performance

Início Dia 18 de Novembro 09, 22H (todas as 3as quartas-feiras do mês)

«Hoje, a Arte da performance reflecte a velocidade inerente à indústria das comunicações, mas é também um antídoto indispensável para o efeito de alienação provocada pela tecnologia. É a própria presença do artista performativo em tempo real, «a suspensão do tempo» pelos performers ao vivo, que confere a este meio de expressão uma posição central. De facto, essa «vivacidade» explica também o interesse do público que acompanha a arte contemporânea nos novos museus, onde o envolvimento com artistas em carne e osso é tão desejável quanto a contemplação das obras de Arte.»

«A Arte da Performance do Futurismo ao Presente» por Roselee Goldberg, edições Orfeu Negro , pag. 281
A Fábrica de Braço de Prata iniciará a partir de Novembro, todas as 3as Quartas-feiras do mês, um programa regular focado na performance enquanto enquadramento e questionamento artístico, visando incentivar a prática e fruição desta expressão em tempo real.
O Homem vive e convive com a sua consciência através do corpo, através do encontro com o corpo; o corpo é uma espécie de primeira ferramenta comum.
A performance serve-se também de diferentes estratégias para dar forma e ir ao encontro do outro, o outro se pensado como o espectador, é entendido nas práticas de performance muitas vezes como parte activa da totalidade do acontecimento apresentado.
Na performance várias disciplinas podem cruzar-se; é a experiência vivida, o processo ao vivo, que parece adquirir grande importância; o corpo é o elo para um lugar de questionamento, onde a fisiologia é o derradeiro limite.
Lugar de encontro, a Fábrica de Braço de Prata dará a possibilidade de dar visibilidade à prática da performance e à sua fruição por parte de um público variado.
O programa terá essencialmente 3 linhas orientadoras:
-Vocacionadas para praticantes experimentados nacionais e internacionais que procuram um espaço fora do establishment.
-Dar possibilidade a iniciantes de ter um público e interlocutores que o possam ajudar.
-Fomentar a prática da performance, a documentação e a construção teórica de maneira a tornar acessível este tipo de expressão.

Cartaz-enviar

Programa do próximo dia 18 de Novembro 09

Performance Carlos Farinha,
Bruno Sousa,
João Garcia Miguel e Sara Ribeiro…

Vídeo performance Nuno Oliveira e Margarida Chambel, João Garcia Miguel…

num sábado frio e chuvoso…

tour_France_Le_magasin_de_cycles_(1939)DUAS LINHAS NUM SÁBADO FRIO E CHUVOSO

Tem andado por aí uma barulheira, absolutamente natural em qualquer democracia e, por maioria de razão, numa democracia tendencial como é aquela em que vamos existindo.
A mais nefasta é a paz podre dos cemitérios, como dizia Jaurès e o mais inquietante seria se perante a última semana…noticiosa, a opinião pública se tivesse congelado, inerme e inerte, à guisa daqueles lagartos que se plasmam à beira dos caminhos como pedras e parecem ter um olhar vítreo e descentrado.
Pobres lagartos, isso é neles natural. Mas nós somos homens, homens e mulheres e, como dizia Teófilo “Não basta possuirmos a posição vertical, importa que nos firmemos nela”.
Tinha, a meu ver, muita razão o velho tribuno.
Vai daí, tenho intemerata e vigorosamente (para ficar mais quentinho) entrado em foros onde a escaramuça é mais acesa – pelo-me por envinagrar sacanas e fidalgotes – e distribuído umas considerações que me sabem muito bem.
A última foi esta, despoletada por uma reflexão de Luís Filipe Menezes, o qual disse numa entrevista e cito, que “O país precisa de pacotes de transparência”. É capaz de ter razão, no entanto…
Eis o que escrevi:


FALAR ALTO E CLARO

É já um imperativo ético sermos claros.
O medo ainda domina, mas é já fundacional falar alto e claro. Como o povo já dá indícios de querer.
Vamos a isto:
Não haverá pacotes que cheguem enquanto o PS, tendo abandonado a sua face clara de partido pró-povo, estiver nas mãos de gente que alegadamente vê na política um excelente instrumento para subir, doa a quem doer, na vida de absoluto bem-estar. Com lisura? Parece que nem sempre.
Não haverá pacotes que cheguem enquanto associações…discretas, que deviam ter como meta o bem social e pessoal, forem alegadamente veículos para controlar a população, o meio societário e as relações entre os cidadãos.
E não haverá pacotes que cheguem enquanto persistir o tipo de mentalidade sintetizado numa frase tristemente famosa que reza (cito aproximativamente mas com verdade)”Quem se meter connosco leva!”, que se foi alargando às demais formações partidárias.
O verdadeiramente grave, que os pacotes geralmente não desmontam, não é haver um ou dois ou mesmo mais prevaricadores pontualmente caçados – mas sim ter-se estabelecido um sistema psicológico/social onde reina o compadrio, onde o abuso se encara como legítimo ou natural e onde reinam o cinismo e a “navegação à vista” da ética.
Isso é que é o cancro que está a destruir a Democracia.
E isso não se extingue ou trata com paliativos, só com uma acção, por meios democráticos, séria, empenhada, verdadeiramente interessada na limpeza moral e social da Nação.
O resto é pura conversa!

ns

new york – visual art

skipping panel

skipping the sunstone by karl kempton

A

iris by karl kempton

D*

gourd by karl kempton

mais informação >>>> aqui

ATÉ AO FIM

In_the_car-189

Quando entrei na sala vi num relance que o meu demónio
estava deitado
A boca entreaberta, um resto de baba no queixo de quem
Dorme justamente como um anjo.
A janela pouco cerrada e o sofá chegado
à plena luz
A manta já antiga azul e amarela roçava o chão como se
Tivesse havido por ali discreta borracheira dominical.
Congeminei
Que ele antes de reentrar vindo do etéreo passara
por uma tasca ou que
aceitara a oferta toma lá dá cá de um qualquer maltrapilho
Cheio àquelas horas entradotas de uma modesta
fraternidade bebedora.
Olhando bem via-se-lhe contudo no rosto
uma vaga felicidade
Dizendo melhor uma centelha de contentamento
ou alegria, ou
assim como que a sensação de quem vira o mundo
no seu lugar real

Vamos a ver, no fundo a lonjura dominava
Como se visse o cavalheiro por uns binóculos ao contrário

Cheirava um pouco a flores e vagamente
a desodorizante
Um livro tombara no chão, ficara à espera
aberto anquilosado
Quando abri a porta da cozinha vi sobre
o fogão um tacho com
Uma iguaria qualquer com que se entretivera
certamente antes de cair no leito vencido
talvez pelas canseiras das últimas horas.

Se minha mãe estivesse viva decerto
lhe teria aplicado um raspanete
Uma expressão em dialecto se calhar
um tabefe levezinho. O meu pai
Poria na cara aquele sorriso suave dos dias sem idade

Lá fora estrepitavam ruídos da cidade barulhenta
Contos do dia e da noite, o irresistível
fascínio do desconhecido.
Sentei-me, a angústia apoderara-se de mim. Uma frase estranha
Revirava-se-me na cabeça.
Quando olhei pela janela o horizonte
pareceu-me uma linha ténue.

Mais tarde, pensei, falaríamos a preceito. Ou antes
por entre dentes eu diria talvez
coisas sobre a grande aurora ou então sobre a memória

Sibilina dos sobreviventes imutáveis.

Poema de Nicolau Saião

 

HASTA EL FIN

Cuando entré en la sala percibí de un vistazo que mi demonio
estaba acostado
La boca entreabierta, un resto de baba en el mentón de quien
Duerme sin remordimientos como un ángel.
La ventana entrecerrada y el sofá situado
a plena luz
La manta ya vieja azul y amarilla rozaba el suelo como si
Hubiese ocurrido allí una discreta bacanal de domingo.
Colegí
Qué él antes de recogerse al llegar del espacio celeste había pasado
por una tasca o que
había aceptado un trago de cualquier golfo
Ganado a esas horas tardías por una modesta
fraternidad bebedora.
Bien mirado afloraba sin embargo en el rostro
una confusa felicidad
mejor dicho una centella de satisfacción
o alegría, o
acaso la sensación de quien descubre el mundo
en su lugar debido

Veamos, en el fondo la lejanía dominaba
Como si yo mirase el caballero por unos prismáticos invertidos

Olía un poco a flores y vagamente
A desodorante
Un libro iba a caer al suelo, quedando a la espera
abierto inerte
Cuando abrí la puerta de la cocina vi sobre
el fogón un perol con
Una vianda cualquiera con la que se entretuvo
positivamente antes de caer en el lecho vencido
quizás por la fatiga de las últimas horas.

Si mi madre estuviese viva en verdad
le habría aplicado una reprimenda
Una expresión en dialecto y talvez
un sopapo mínimo. Mi padre
Pondría en la cara aquella sonrisa suave de los días sin época

Allá fuera crepitaban los ruidos de  la ciudad embarullada
Cuentos del día y de la noche, la irresistible
fascinación de lo desconocido.
Me senté, la angustia se apoderó de mí. Una frase extraña
Me daba vueltas en la cabeza.
Cuando miré por la ventana el horizonte
me pareció una línea ténue.

Más tarde, pensé, hablaríamos en serio. O antes
entre dientes yo diría quizás
cosas sobre la primera aurora o entonces sobre la memoria

Sibilina de los sobrevivientes inmutables.

nicolau saião
in ESCRITA E O SEU CONTRÁRIO

Trad. Pedro Sevylla de Juana

exposição

“Constança Lucas e Jacqueline Aronis”

Gravuras, desenhos,

poemas visuais e livros de artista

até 07 de novembro de 2009 -  próximo sábado

-2-1

Galeria Gravura Brasileira

http://www.gravurabrasileira.com/

Rua Dr. Franco da Rocha, 61, bairro Perdizes,

São Paulo, SP – Brasil

Horário de funcionamento:

Segunda a Sexta: 10h00 às 18h00 e Sábado: 11h00 às 13h00

http://constancalucas.blogspot.com/

http://www.constanca.lucas.nom.br/

http://www.facebook.com/constanca.lucas

Botella del Náufrago

Botella-del-Náufrago-Nº-12-1

Acaba de sair a revista “Botella del Náufrago”. Nela colaboram: Nicolau Saiao (Portugal); Julia Benavidez, Rolando Revagliatti, Ivana Szac, Viviana Carinci, Eduardo Espósito, José Oscar Perdigón, Norma Gianico (Argentina); Raúl Henao, Francisco Cisco (Colombia); Patricio Bruna Poblete, Emilia Valenzuela, Patricio Gutiérrez, Eliana Vega, Claudia Beba, Franco Bertozzi, Luis Abarca Mayea (Chile); Alexander Zánches, (Panamá) y Ricardo Díaz (França)

2 poemas publicados 2

Pensamiento Mágico


Huele a orines el baño de la niña
Huele a toallita recién menstruada
a gota gorda
y la mañana -sin embargo- la ilumina
y su pequeña tragedia cotidiana
se diluye como gotita al sol
La boca abierta a la luz
como una breva picoteada por los pájaros
Canta victorias que no ve
pero pretende ciertas
Por un mes más
por veinte días
Él podrá escapar a la existencia

Eduardo Espósito

Textos de “Cantos do deserto” (Desierto de Tabernas, Almeria, España)


l. Coisas, coisas e labirintos, pedras entre
pedras – que o sol aqui se põe muito mais tarde
A sonolência da erva Fórmulas mortas
que a memória nos dá. Tudo o que de longe pela noite
se vê Animais parados como desejos Como
desconhecidas raizes Figuras que de repente
erguemos por dentro (a casa nova e sem ninguém, a
oliveira cortada, a mágoa de saber que flores e frutos
são já de uma outra vida, pois que os meses
inconclusos se afastam). Bosques que num repente
devagar se consomem Destroços na lembrança
nos olhos ou nas chagas
Diferentes coisas sobre os espaços da manhã.

2. Vestígios de as águas Troncos mortos sílica
nas páginas impressas. O rosto um rosto
que se sabe perdido As leis do mundo
serenamente postas na paisagem. O negrume da noite
e um quadrado de açúcar no interior do tempo
Na chávena de chá
oferecida bebida no sopé da montanha.
À nossa frente, a casa
e uma figueira morta. Olhos semicerrados
pela ardência do ar – um corpo que submete
passos paragens sedes. Que em tudo se define
nossa pura vontade Não de
apenas zonas rochedos ou areias As aves
que nunca iremos ver.

Nicolau Saião

então, vá!

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… Oh, filho! E se fosses c… ao Bilhar Grande, a ver se isso te passa?!  >>> aqui

no porto

marcha

uma questão – de boa educação

Um excelente texto sobre educação – como sempre – claro que é de santana castilho (no público de ontem)

educação

na era do anti tabagismo

e… a propósito das edições especiais de lucky strike – a lei anti-fumo está a foder o design toooodo!

nota:

não recebemos apoios da lucky…

e… por acaso, até fumamos camel…

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LuckyStrikeDoctor-1

LuckyStrikeFireSLE-20fAT2007

sobre caim

recebemos por mail o texto que segue:

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A POLÉMICA SARAMAGO/CAÍM

Saramago, democraticamente, tem todo o direito de ser ateu como qualquer outro cidadão igualmente o tem. Também é verdade que a prática histórica das religiões mostra um acervo contínuo de arbitrariedades, de abusos e de crimes. É igualmente certo que o poder, segundo se sente, é o que mais interessa aos líderes das religiões reveladas.
No entanto, dito isto, importa reconhecer que Saramago jamais teceu, nos seus escritos ou nas suas palavras ditas, críticas tão firmes a abusadores, tão abusadores como os outros, como Stalin, Mao, Fidel, Beria ou Pol Pot. Nem sequer submeteu a uma crítica firme as prepotências inscritas e intrínsecas da doutrina marxista, leninista, guevariana ou estalinista.
Quanto à sua “filosofia”, em Portugal, nunca passou por pensar seriamente, compenetradamente, as caquexias de Cunhal e outros dirigentes ou do PC.
Por isso, no mínimo o que poderemos achar é que Saramago é tristemente parcial.
Se ele visa ou não uma estratégia de marketing, é assunto que não abordaremos, por ser – a ser verdade – demasiado lamentável.

Jorge Envendos

caim sem abel

jornais_ciclicos

a dimensão de deus
é deveras preocupante
a única dúvida que se nos levanta é o saber se ele paira no espaço
ou
se porventura entrou na órbita solar

garantiram-nos que
nem saramago
nem o papa
o sabem

(saramago por se ter exilado em espanha e bXVI por avaria técnica na rede web do vaticano o que o tem impedido dialogar com o além)

a única coisa que sabem  – ao que parece – prende-se com esse “best-seller” editorial que tem por nome “bíblia” (não confundir com a revista bíblia que tem presença nas bancas da marginalidade de-vez-em-quando)

essa obra prima da literatura foi escrita por inspiração divina
ouvimos algures

quer isto dizer que deus emprenhou os ouvidos dos humildes pastores judeus
e
estes se tornaram (de um momento para o outro)
mais poéticos que o senhor fernado pessoa
mais filósofos que o senhor saramago
mais sociólogos que a doutora maria de lurdes rodrigues
mais marxistas que o nosso herói groucho marx
mais anarquistas que o grão mestre bakunine
mais videntes que a d. maia
mais espirituais que pio XII
etc & tal

das últimas notícias que temos
-  caim é de facto um livro de josé saramago e abel nunca existiu (sobre adão e eva levantam-se muitas dúvidas)
- o patriarca do porto anda de candeias às avessas com o nobel escritor português
- os seminaristas lusíadas estão a organizar uma grande manifestação para exigir do papa alemão o direito à união de facto (o bloco de esquerda já mobilizou os seus militantes – disse-o francisco louçã aos todos canais de TV)
- o vaticano convocou deus para estar presente em fátima (deus não confirmou nem desmentiu)
- pelo sim pelo não saramago irá também ao santuário para se certificar “in loco” se deus existe (já garantiu que convidará o supremo arquitecto para uma bica na brasileira do chiado)
- o cardeal patriarca de lisboa foi peremptório – aos microfones da rádio renascença
“deus mandou-me um email afirmando que jamais irá beber bicas com ateus”
- José socrates  já comprou o seu exemplar de “caim” numa livraria do freeport e cavaco silva adquiriu dois exemplares de “abel” e vinte da nobilíssima “bíblia para todos”